Novos contornos de um coração tricolor

O futebol, como um todo, é assunto constante dos meus dias, mas nunca sofri da necessidade de me fingir imparcial. Mais que isso, desde menino carrego uma desconfiança e os ouvidos bem atentos aos posicionamentos dos profissionais da imprensa futebolística. A euforia do Galvão Bueno nos gols do Flamengo nunca me enganou, o carinho do Luciano do Valle pelo Sport de Recife sempre foi escancarado.

Poucos admitiram ou admitem sua paixão. Nelson Rodrigues jamais escondeu a camisa do tricolor carioca, Neto tem sempre, em mãos, uma camisa do Corinthians. E Darlan, um amigo próximo, talvez seja dos poucos seres no mundo que, embora não assuma o gosto pelo Bahia, acaba se entregando nas entrelinhas de seus gestos.

Acontece que eu sou Bahia. Desde o fundamental Galícia em minha vida, tive a certeza do que mais me alegrava e comovia no jogo de bola. Dos tantos times de botão tornei invencível o Tricolor de Aço. No álbum de figurinhas a incansável busca por completar, primeiro, o meu time, e uma alegria, ainda que contida, mesmo diante das repetidas figurinhas do Bahia. Assim como James Martins, fiz de Bobô, Zé Carlos, Paulo Rodrigues e João Marcelo os meus heróis. Títulos como os de 59, 88 e 94 estão grudados em minha vida: estrelas que transcendem os uniformes que já não tenho.

Apesar de tanto amor, assumo que há muitos anos alimento pelo Bahia uma justificável mágoa: as tristes campanhas na última década, a descida até o limbo da 3ª Divisão e os tantos BAVIS perdidos são motivo de tamanha importância que nem mesmo a triunfal volta à Elite do nosso futebol me amoleceu o coração. Desde o fim da Fonte Nova desconheço a energia que se dá dentro no novíssimo Estádio Metropolitano de Pituaçu.

Se num simples toque de botão, em plena Guerra Fria, o mundo todo poderia se acabar, bastaram três fatos em três dias para este pobre e sofrido coração tricolor começar a ganhar novos contornos.

Na última sexta-feira, depois de uma espera que, por alguns minutos, me causou desejo de desencanto, perto dos acréscimos, enfim, o encontro: me vi afeiçoado e encantado por uma pele branca e macia, os olhos verdes de uma luz tão intensa que desde então, sem pudores, vem perfurando as nuvens de um tempo que, em mim, insistia nublado. Este o primeiro traço me renovando o coração.

No dia seguinte, assistindo à péssima atuação do time mal montado por Joel Santana, outro bom contorno: com o placar em favor da horrorosa equipe do Avaí, esbravejei, descri e até profetizei novo retorno à bem conhecida zona de rebaixamento. Quando já dava por vencido o embate, em dois minutos, surpreendente, o Bahia retoma a vantagem, me entornando a alegria de rever essa que sempre fora sua grande marca: virar a partida.

De coração acompanhado pela minha doce branquinha, no domingo, fui ao cinema ver “Bahêa Minha Vida”, já empolgado pela impressão que o trailer me causara e pela voz emocionada de Darlan assumindo o desejo de também contemplar a película. Dirigido por Márcio Cavalcante, o filme abusa de uma belíssima fotografia, tem o enredo bem arrumado e ritmo na medida certa.

Dá-se início com depoimentos de Juca Kfouri, João Carlos Teixeira Gomes, Marcelo Barreto entre outros, na tentativa de entender de onde vem a paixão do brasileiro pelo futebol. Passa-se a contar o Bahia, seus ídolos e suas cores, a eternizada conquista da Taça Brasil sobre o Santos, a quase invencível década de 70, o triunfo de 88, o vitorioso empate, aos 47 do 2º tempo, em 94, a temporada no limbo até culminar no retorno à 1ª Divisão.

Como tantos pelas salas de cinema espalhadas no país, não contive as lágrimas, mantive, nos 102 minutos de filme, arrepio no corpo, sorriso de criança no rosto, e meu chorar só não foi soluçante porque ainda sou movido, muitas vezes, pelo receio de parecer ridículo. A declarada paixão de Binha, o choro desavergonhado de Lourinho abraçado a Bobô e o hino abalando as estruturas do estádio me devolveram o gosto, sem mediações, que há tempos não sentia.

Desde o instante que os letreiros tomaram a tela, mesclado a uma emoção quase nostálgica, dentro de mim não planejei impedimento de me sentir orgulhoso, me despi da razão, e já até faço planos de conhecer de perto o minúsculo estádio onde o Bahia recebe adversários.

Ao completar nove anos de vida, ganhei, de meu pai, uma bicicleta. Em poucas semanas, antes mesmo de começar a pedalar, ele a vendeu, sem qualquer explicação. Para amenizar, algum tempo depois, me trouxe uma bola, de couro, com os gomos enfeitados de escudo do Bahia. Fiquei eufórico. Fiz pouco caso por não saber andar de bicicleta, nunca mais desaprendi a conduzir uma bola de futebol. Este ano, junto ao livro, não tenho dúvidas do que dar ao meu pequeno João no Dia das Crianças.

E certo é que os novos contornos que se desenham em meu coração começam a me permitir uma incontida alegria – sol interrompendo dias chuvosos –, a mesma impressão de eternidade que sentia na infância quando, nos intervalos do pai que eu inventava, este se tornava real sempre que me carregava nos ombros para ver, no templo apelidado de Fonte Nova, mais um tento do Esporte Clube Bahia.
Por Cazzo Fontoura

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