O pé da igualdade

Nada mais revelador da nossa desigualdade que o desempenho do São Paulo. O clube brasileiro mais constante nos momentos felizes mostra em seu nome, cores e origem, o quanto o Brasil deu certo no Estado bandeirante, que nem parece Brasil.

São Paulo é outro país. E o São Paulo, outro clube. O time do goleiro Rogério Ceni, em sua disparada, mostra que o futebol precisa também de umas boas reforminhas. Não se fala mais em revolução, que está fora de moda. Ser revisionista agora está liberado.

Antigamente, no tempo da patrulha, ser chamado de reformista ou revisionista era mesmo que xingar nossa mãe. Mas, hoje, o governo federal poderia ter um plano mais agressivo para tentar fazer também o futebol ser menos desigual.

Os chatinhos vão logo dizer: ah! Mas futebol é iniciativa privada. Ah! Mas futebol não é prioridade. O que pode ser mais importante para o brasileiro que ter seus clubes em condições de disputar com mais força com o danado do São Paulo?

Entre os seis primeiros da Série A, metade é de paulistas. Tem também o Palmeiras e o Santos. Segundo a teoria da metáfora, que peço emprestado ao professor Hilário Franco Júnior, esta classificação mostra que o país precisa distribuir melhor não só suas riquezas-riquezas, “concretas”, mas também, em pé-de-igualdade, suas riquezas simbólicas que mobilizam Eros em busca da felicidade.

O Nordeste tem três clubes. O Sport Recife resiste bravamente na décima posição, mas o Náutico é o último time, antes de entrar no grupo dos rebaixados, e o América de Natal ocupa a posição do lanterna com dignidade, mas ocupa.

O Náutico pode ficar certo que, se ficar mais ou menos como está hoje nas últimas rodadas, o Corinthians terá alguma facilidade ou sorte de ultrapassar o time Timbu. Se fizeram aquilo com o Internacional, na briga pelo título, imagina para salvar o Timão do rebaixamento!

Não há hipótese de times do Centro-Oeste ou do Norte entrarem na festa. E os que não têm tantos recursos, como os nordestinos, vivem no ioiô, como aconteceu com o Santa Cruz, que caiu após ter subido. Fortaleza, Ceará, Vitória, Bahia não ‘guentaram’ o régui.

Enquanto poderosa instância simbólica de adensamento dos valores, transmissão de princípios e consentimento de dominação, no plano cultural ou ideológico, o futebol transmite uma idéia senso comum de que São Paulo e o Nordeste são assim mesmo e Deus foi quem quis.

São Paulo é assim porque trabalha sem parar. O Nordeste, porque o Sol aqui é brabo, né não? São Paulo atrai mais investimentos, tem um Produto Interno Bruto imenso e seu time é mesmo o melhor. O Nordeste tem muita seca e times sem chances de brilhar.

Imagino que a luta simbólica, por ser geradora de hábitos, não deveria ser tratada assim, tão a distancia, pois a equação tradicional pode estar invertida: em vez de “tomar Brasília pelo voto PARA mudar a sociedade” devia ser “tomar Brasília ENQUANTO muda a sociedade”.

Logo, logo, talvez o São Paulo nem possa disputar Série A, pois terá aberto tal distancia para os outros que vai matar a graça do futebol, que é ser o esporte menos previsível de todos. Vai abrir um time de basquete, esporte sem zebra. Ou beisebol.

E o Nordestão vai ficar nessa. O futebol é aparelho ideológico doloroso para os nordestinos, pois consolida uma imagem triste de povo exótico, comedor de farinha, um “Brasil Série B”. Outras regiões são menos Brasil ainda, pois habitam a terceira divisão do país. Nem estão no mapa. Quer ver, pergunte a um paulista onde é Coruripe.

Podem comparar os indicadores de desenvolvimento humano e as classificações das séries A, B e C. Mandem o resultado para o professor Hilário: o futebol brasileiro é a cara, lambida e cuspida, do nosso país.

E, enquanto for tratado apenas como “lazer” do povo, continuará reforçando nosso abismo de desigualdades em vez de mostrar novos caminhos pela via da felicidade partilhada.

Como ninguém quer ficar por baixo na briga de posições por espaço de poder, disseminada em toda a sociedade, qual o resultado previsível? Um monte de baianos torcendo pelo São Paulo, aqui no prédio mesmo vem até torcida organizada assistir aos jogos. É a torcida que mais cresce, tirando gente do tricolor local, que caiu e ficou na terceira.

Não tá vendo que isso é errado? Arrumar um jeito de distribuir renda, gerar oportunidades, poderia fazer um futebol menos desigual entre as regiões, no entanto, a idéia que ainda domina é a mais selvagem concorrência: quem tem bambá, pode mais, e que morra maria preá.Por Paulo Leandro

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