“Bobô perseguiu a mim e a quem coloquei na Sudesb”

Ex-diretor de Operações da Sudesb, o engenheiro civil Nilo Júnior resolveu dar um esclarecimento exclusivo ao editor de Esportes Edmilson Ferreira sobre a Tragédia da Fonte Nova, ocorrida em 25 de novembro de 2007, quando sete pessoas morreram após o desabamento de um lance de arquibancada. Ele ainda não entende por que foi indiciado por homicídio culposo, já que deixou bem claro à delegada Marilda Marcela da Luz que, por sua vontade, o estádio estaria interditado. Não poupou críticas ao diretor-geral da Sudesb, Raimundo Nonato, o Bobô, a quem classificou de incompetente.

A TARDE | Por que resolveu falar somente agora?

Nilo Júnior | Um dia depois do acidente, fui instruído pelo diretor-geral que ninguém do órgão deveria dar entrevista a partir daquele momento. Somente ele. Também chegou a hora de esclarecer alguns pontos que, até então, só um lado se pronunciou.

AT | Havia divisão na Sudesb?

Nilo – Não sei te dizer se a expressão correta seria divisão, mas que a convivência entre a Diretoria Geral e a Diretoria de Operações se tornou quase impossível depois do meu depoimento, isso eu não tenho dúvida em afirmar.

AT | Como foi o depoimento?

Nilo – Foi muito tranqüilo, mas cansativo. Eles bombardeiam você de perguntas durante horas, mas basicamente eles queriam saber o que eu quis dizer com o documento que passei no início do ano, para o diretor-geral, sugerindo a interdição do estádio. Aliás, nesses anos todos de descasos, fui o único que colocou num papel que o estádio deveria ser interditado para os reparos necessários. Infelizmente, não consegui.

AT | Qual foi a intenção daquele documento?

Nilo – Logo no primeiro dia em que assumimos a Diretoria de Operações, tivemos acesso ao laudo da Geluz, empresa que havia feito uma recente avaliação sobre as condições da estrutura de concreto armado do estádio. De posse daquelas informações, reunimos os engenheiros e a pessoa responsável pela operação do estádio e fomos fazer as verificações superficiais possíveis naquele momento na estrutura das arquibancadas, para darmos subsídios ao diretor-geral sobre o posicionamento daquele grupo e a situação do estádio. Após as verificações, fomos unânimes ao opinar que o estádio não deveria ser aberto para jogos do Bahia que estavam prestes a acontecer. O aspecto era de abandono e descaso.

AT | Comenta-se que algumas pessoas da cúpula de governo não ficaram satisfeitas com você…

Nilo – Minha imagem sempre foi vendida por ele (Bobô) para a cúpula. Então, não poderia estar diferente para eles. Muitos não sabiam do meu posicionamento desde o início do ano a respeito da situação do estádio, de que ele não deveria abrir para o público, mas com toda certeza, após o meu depoimento, eles acharam que eu estava querendo livrar a minha cara e achar um culpado sem me preocupar com o que isso traria de malefícios para o governo.

AT | O que achou dos pronunciamentos de Bobô à imprensa?

Nilo – Contraditórios, confusos, alguns sem fundamentos, colocando a responsabilidade em quem não tinha, falando que não sabia de nada, nunca havia sido informado de tais condições. Enfim, inaceitáveis.

AT | E com Bobô ficou alguma mágoa pela sua saída?

Nilo – Ele peca pelo desconhecimento da administração pública. Fico chateado pelas inverdades que vem pregando a respeito de tudo o que vem acontecendo desde o início da situação, tanto internamente, no órgão, quanto no inquérito.

AT | O quê, por exemplo?

Nilo De que já estava pensando, mesmo antes do acidente, em mudanças na equipe de engenharia, e que o ultimo a sair foi eu. Nenhuma pessoa que ele tirou da minha diretoria, e não foram poucas, era engenheiro, arquiteto, orçamentista. Enfim, mais uma inverdade. Ninguém era da equipe de engenharia, mas sim, da área administrativa e operacional da diretoria, e todas elas indicadas por mim para os cargos. Na verdade, era para me atingir. Em nenhuma das exonerações, teve a elegância e o respeito à hierarquia. Simplesmente mandava o chefe de gabinete passar um e-mail ou ligar no dia anterior mandando avisar aos meus funcionários que não precisavam mais vir no outro dia. Nem mesmo na minha exoneração ele me comunicou. Estava de férias e recebi, às 18 horas, uma ligação do chefe de gabinete me comunicando que estaria sendo exonerado no dia seguinte.

AT | Está arrependido de algo que declarou no inquérito?

Nilo De maneira alguma. Minha carreira estava em jogo, não iria me omitir. Tenho testemunhas que partciparam da reunião do início do ano. Documentei o fato.

AT | Esta situação gerou alguma ameaça a você?

Nilo – Recebi duas ligações me ameaçando de morte, dizendo que sabia onde eu morava, que eu pagaria de um jeito ou de outro e que iam me pegar. Isto tudo porque não tinha como me defender.

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