Futebol baiano e cultura digital

Já se pode pesquisar toda a coleção do New York Times desde 1860, ler a Bíblia no original, nos idiomas mais importantes da Antigüidade, na íntegra, e quem entrar no site do Itaú Cultural tem acesso a todas as pinturas relevantes dos artistas brasileiros.

Também temos acesso a todos os processos de Nurembergue, como desdobramento do final da Segunda Guerra Mundial, e tudo que é ferramenta de busca e ordenamento de informações nos conduz aos assuntos os mais variados, coisa que a gente nem imagina.

Seria o caso de se pensar em avançar um pouquinho do estágio atual do futebol baiano no ciberespaço: a digitalização da nossa memória ainda não foi pensada e paramos no projeto elementar de colocar no ar os sites institucionais dos clubes e federações.

Tudo começou com o galiciano Renato Santarém, que ainda em 1998, montou seu espaço de referência do Demolidor, com hino e tudo, já naquele tempo pioneiro.

Depois, vieram o ecvitoria e a participação da torcida num campeonato virtual, incentivada pelo hábito de navegação de um tal ente virtual chamado pauleand e uma incipiente organização em rede por meio do antiqüíssimo e não sei se já extinto mensageiro ICQ.

A velha Internet Soccer League (se não me engano era www.mamto.sk/soocer/isl) poderia ser encontrada em um atalho oferecido no endereço sites.uol.com.br/pauleand e pela home-page de outros militantes virtuais.

Deu até reportagem no Fantástico na época, quando os rubro-negros ganharam um campeonato sul-americano, ao vencer super-torcidas do Sudeste e de outros países.

Uma nova competição mundial via rede envolveu torcidas de vários países, até da Europa, e o Vitória chegou a conquistar o título da segundona mundial e disputar a elite internacional. Havia os jogos entre as torcidas e vencia quem computava mais acessos durante determinado período.

O sistema avisava ‘don’t cheat’ – creio que é ‘não trapaceie’ – se a pessoa tentasse votar duas vezes no período, o que estimulava a busca de novos cibertorcedores para participar do jogo.

Em seguida, o eusoubahia fortaleceu a cibercena baiana e logo veio o independente ecbahia, não sei se exatamente nesta ordem. Em 1999, lembro bem que a Gazeta Mercantil publicou reportagem destacando o Barradão On line e o duelo Ba-Vi no ciberespaço.

Os clubes, vamos dizer, de menor porte, pedindo o perdão pela desvalorização que a expressão induz, também já têm sua representação, enquanto a Federação Bahiana de Futebol atualiza em seu fbf.org.br todas as informações relevantes das competições.

Até que estamos nos desenvolvendo bem, mas ainda falta, me parece, um projeto mais audacioso de preservação da memória do nosso futebol na rede. Um plano multidisciplinar que envolva história, jornalismo, cultura digital e ciências sociais.

A Sudesb, desde os tempos que Pithon batalhou pela biblioteca do esporte, deve preservar grande parte desta memória em impresso, mas seria o caso de o governo baiano entrar em campo para ajudar a migrar este material para o espaço virtual.

O escaneamento, filtragem de informações e a edição do material deste arquivo digital seria a grande contribuição para preservar a memória da manifestação cultural baiana que mobiliza o maior número de pessoas durante quase todo o ano: o nosso futebol, sim o futebol!

Profissionais como Jorge Samartin, zeloso guardião de nossa memória, pesquisadores do porte de Aloildo Gomes Pires, que tem livro sobre o pioneiro Popó Baiano e pesquisadores da qualidade que temos na universidade baiana poderiam ajudar.

Nestor Mendes Júnior e Normando Reis, pelo Bahia, Alexandro Ramos Ribeiro e Luciano Souza Santos, pelo Vitória, Josemildo Linhares, pelo Colo-Colo de Ilhéus, e tantos outros que podem ser convocados por um mecanismo de rede, seriam nomes certos nesta seleção de pesquisadores responsável por construir este arquivo digitalizado.

Tem estados, não querendo desmerecer, mas já desmerecendo, de menor porte econômico e histórico, que cuidam da sua memória com mais carinho. Quer ver, tentem saber todos os artilheiros do campeonato baiano e comparem com o Pará ou o Piauí.

Um projeto de digitalização da cultura, com foco no futebol baiano, poderia incluir pesquisadores ainda pouco conhecidos como o confrade Luiz Botelho, dono de um acervo que ainda precisa ser melhor distribuído. Estão convocados também os herdeiros de donos de arquivos que estão guardados em algum baú prontos para serem abertos e mostrados.

Tratamos nossa memória com o hábito do ladrão que não quer deixar rastro das suas ações criminosas, com o perdão da comparação aligeirada e algo deselegante. É como se o esforço maior ainda seja para destruir as informações e não guardar para que esta cultura em direção ao passado ajude a transformar o futuro. Nosso hábito é de esquecer e destruir, em vez de lembrar e construir.

Fica, então, esta pequena reflexão, iluminada depois da aula do professor Marcos, a quem agradeço as novas informações sobre cultura ciber. Digitalizar nosso acervo desde a chegada da bola em 1901, o primeiro campeonato em 1905, seria um grande salto na rede, com repercussões positivas inevitáveis fora dela, criando um elo poderoso.Por Paulo Leandro ( Portal Esportivo)

Deixe seu comentário!

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*