Mulheres no campo da luta!

Blog Paulo Leandro – Portal EsportivoO futebol jogado pelas mulheres é a oportunidade para recuperar parte do elo perdido com a arte de se tratar bem da bola. A Seleção Brasileira das baianas Formiga e Elaine já é semifinalista da Copa do Mundo.

Mas que diabo de nação mais machista! Quando é a Copa dos homens, o País pára, é aquela agonia, os trabalhadores decretam feriado para ver os jogos, e os patrões também dão um tempo, e tentam explorar negócios em produtos e serviços que têm a ver com futebol.

Mas, agora, mesmo depois de serem prata olímpica e ouro pan-americano, as jogadoras não atraem tanta atenção. É uma diferença que tem tudo a ver com as discussões de gênero, cuja importância pode mudar o futuro do relacionamento de brasileiros e brasileiras.

Para quem não sabe, a Bahia é um dos principais centros destes debates no País e na América Latina, por causa do desempenho das pesquisadoras (e um raro pesquisador) do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Mulher (NEIM), sediado no campus da Universidade Federal da Bahia, em São Lázaro.

A pronúncia certa é Neím, como se o i fosse acentuado. Para se informar melhor sobre as teorias de gênero e conhecer os resultados das pesquisas, vale a pena uma visitinha ao núcleo construído por Cecília Sardenberg, Ana Alice Alcantara e outras batalhadoras.

O endereço na internet é www.neim.ufba.br/site. O Neim já tem até mestrado e doutorado! E foi muito bem avaliado em sua estréia.

Esta diferença de tratamento entre as seleções poderia dar um bom estudo. Não me venham com razões genéticas, raciais, sexuais ou qualquer outra da área biomédica para dizer que os homens são melhores por causa da testosterona ou qualquer química braba dessa.

Não tenho como provar agora, mas gostaria de testar a hipótese de que os homens sempre foram muito unidos para impedir que as mulheres se organizassem mais também no futebol.

Os homens só permitem a participação feminina na hora de preparar o tira-gosto ou apreciar a moda de shortinhos apertados ou instigantes perninhas cruzadas no sofá diante da televisão.

Jornalismo esportivo também é assim. Raramente, uma mulher chega aos cargos de comando, as repórteres resistentes ficam pouco tempo nas editorias de esporte e estas figuras raras cumprem pauta de interesse secundário. Só dá barbado. Soninhas são estranhas ao ninho.

Vamos pegar alguns pequenos, mas significativos exemplos para esboçar uma possibilidade de demonstrar que as mulheres vêm há décadas tendo seu potencial cerceado por nós, cruéis marmanjos.

Vejam alguns replays históricos: desde o final do século 19, as mulheres tentam se organizar para jogar futebol. Mas foi com a primeira guerra mundial que elas chegaram mais perto de realizar o sonho de serem reconhecidas como protagonistas.

Operárias nas fábricas de munição tomaram consciência de sua condição de duplamente exploradas e o futebol serviu de cenário para expressar sua revolta. Uma inédita partida em 1917 entre times de duas fábricas de Preston, na Inglaterra, atraiu 10 mil pessoas.

Três anos depois, já após a guerra, dois times femininos jogaram em Liverpool para 53 mil torcedores e torcedoras. Em Paris, França x Inglaterra, futebol feminino, atraiu 12 mil pessoas.

Em todo o Reino Unido, incluindo Escócia, País de Gales e Irlanda, além da mamãe Inglaterra, o futebol feminino foi capaz de organizar 150 times. Mas os homens da Football Association decidiram acabar com a brincadeira das mulheres.

Não teria sido, portanto, lógica de mercado ou outra qualquer, mas o androcentrismo, a mania de colocar o homem no centro do mundo, que fez retroceder o futebol feminino, cuja qualidade já garantia presença de público e portanto, capaz de gerar recursos.

Em exemplo mais recente, Milão, na Itália, produziu o raro fenômeno de uma torcida organizada feminina, a Milan Club Femminile Stella, em 1971. Oito anos mais tarde, pesquisas apontavam 35% de interesse das inglesas pelo nobre esporte bretão.

Hoje, não há qualquer incentivo para as mulheres baterem seu babinha, apesar de jogarem muita bola, com chances de superar os homens em produção de craques, como demonstra a boa seleção brasileira de futebol.

Na Bahia, embora o Bahiano de Tênis tivesse produzido grandes jogadoras como Flor-de-Lis, nos anos 80, o primeiro campeonato baiano oficial só foi organizado em 1998, quando o Flamengo de Feira de Santana conquistou a Taça Gal Costa.

Muito antes, porém, os machos entraram em campo para barrar o avanço das mulheres. Na década de 50, o futebol feminino cresceu tanto que os homens da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) proibiram o show das preliminares.

O Vitória formou um dos grandes times brasileiros da época e permaneceu invicto até ser derrotado pelo preconceito. Um triunfo de 3 a 1 num Ba-Vi feminino garantiu mais público no estádio da Fonte Nova recém-inaugurado, mas as moças incomodavam.

Anotem os nomes das heroínas: Olga, Lurdinha, Lindaura, Lindinalva, Maria Luiza, Volante, Doranita, Grijalva, Nilzão, Eline, Terezinha, Schirley, Reinilda, Laise, Tonha Prego e Lucinha Rezende estavam entre estas pioneiras em uma luta que continua, agora, com a nossa bela, digna e brava Seleção Brasileira.

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