Fonte Nova é transformada em abrigo

Interditada desde o mês de novembro, a Fonte Nova agora abriga novos “hóspedes”. Com a ausência do público semanal após a tragédia que matou sete pessoas no ano passado, moradores de rua ocupam boa parte das margens do estádio, transformando o local em um verdadeiro abrigo.

Cerca de 30 pessoas, misturadas a animais como cães e galinhas, se distribuem em locais onde funcionavam bilheterias, portões, escadarias e canteiros. No ambiente, os moradores de rua cuidam de crianças em barracas improvisadas, além de consumirem álcool e outras drogas livremente.

De acordo com os sem-teto, sob a marquise da Fonte Nova não é exatamente uma novidade. Antônio dos Santos Conceição, de 38 anos, alega que já perambula pelo local há 12 anos. “A gente costumava ficar atrás do [ginásio] Balbininho na época em que a Fonte Nova funcionava. Mas agora, como não tem ninguém, voltamos pra frente do estádio”.

Muitos são integrantes de uma mesma família. Conceição divide as ruas com a esposa, que também trouxe para a morada improvisada uma filha e uma neta. Com eles, outros parentes em situação de risco social. Para sobreviver, catam lixo pelas ruas, pedem esmola nos sinais de trânsito e nos bairros próximos ao estádio, como Nazaré e Brotas.

Os sem-teto garantem que não roubam quem passa pelas ruas. Também afirmam não permitir que ladrões se juntem ao grupo que mora na Fonte Nova. “Os policiais nos protegem, conversam com a gente, não nos incomodam. Aqui ninguém rouba ninguém, não somos criminosos”, explica a mulher de Conceição, Maria de Fátima Silva.

Entretanto, Conceição e o cunhado, Alessandro da Silva, admitem que boa parte dos moradores consome drogas diversas. “Eu bebo, ele bebe, a minha mulher e a filha dela bebem, não vou mentir. Tem gente que também usa coisa mais forte, mas aí a gente pede que use lá longe, para as crianças não verem”, conta.

Violência

Mais até do que a miséria, a violência é o que mais assusta os novos habitantes da Fonte Nova. Segundo eles, o local é frequentemente visitado, à noite, por funcionários da Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom), que se utilizam da força para tentar afastar os sem-teto do estádio.

Chorando, Alessandro da Silva revela que os agentes usam pedaços de madeira com pregos para agredir os desabrigados, além de queimar móveis, utensílios e roupas durante as operações. “A última vez que eles vieram, na semana passada, bateram nos homens e também em mulheres com crianças no colo”, denuncia, mostrando marcas roxas no braço direito.

De acordo com os moradores, a primeira ação recente da Sucom aconteceu na quinta-feira de Carnaval, quando foram aconselhados a abandonar o local. À noite, teriam sido agredidos por não terem obedecido. Desde então, segundo alegam, vez por outra são visitados de surpresa, sempre a socos, pauladas e ameaças de morte.

Antônio dos Santos Conceição afirma que se caso tenha uma oportunidade de ficar frente-a-frente com os supostos agressores, identificaria todos imediatamente. Apesar disso, pensa que prestar uma queixa de violência na polícia não resolverá o problema da insegurança no local. “Eu sei que tem policiais envolvidos nisso. Não posso prestar queixa contra quem me agrediu, é suicídio”.

O gerente de Fiscalização Territorial da Sucom, César Aleluia, negou todas as acusações dos moradores da Fonte Nova. De acordo com o funcionário do órgão, não há equipes que trabalhem para a Sucom atuando à noite na cidade, com exceção da Gerência Ambiental, que funciona em regime de plantão recebendo queixas de poluição sonora. “Sem ninguém fazendo contato com pessoas à noite é impossível algo assim acontecer”.Lucas Esteves/ Pelé.Net

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