Curso para árbitros de capoeira

Arte-marcial, esporte, cultura popular, manifestação musical? Afinal o que é a capoeira? “Apesar de pioneira, a capital baiana sempre tratou a capoeira apenas como cultura, mas, agora, está tendo a chance de vê-la como esporte competitivo”, afirmou o presidente da Federação de Capoeira da Bahia, Nelsival Menezes, que assumiu a entidade há oito meses e já conseguiu trazer para Salvador, neste final de semana (14 a 16 de outubro), um curso de arbitragem da modalidade. “Já havia 21 anos que Salvador não recebia um curso desses, então essa ação, sem dúvida, foi de extrema importância para o desenvolvimento da modalidade no Estado. E não pretendemos parar por aqui, pois temos muito que aprender. A capacitação no setor deverá se estender ao longo do ano”, salientou Nelsival.

Cerca de 30 pessoas participaram do curso de sexta a domingo. Estiveram presentes os grupos: Raça, Alabama, Canjiquinha, Espinho Remoso, Quilambola, além de alunos de Educação Física da UFBA e da UCSAL. O curso foi ministrado pelo presidente da Confederação Brasileira de Capoeira, Gerson Nilton (Mestre “Neguinho’) e pelo vice-presidente técnico desportivo da Confederação Brasileira, Antônio Afonso.

A qualificação aconteceu em diversos núcleos. No domingo, o encerramento foi realizado na Academia Alabama, situada no bairro dos Barris. “Não podíamos ter competições sem arbitragem, mas agora a realidade é outra, entre os dias 21 e 23 desse mês, já teremos o Torneio de Integração Estadual, em que também vamos aproveitar para selecionar os atletas que convocaremos para a seleção baiana, que disputará o XV Campeonato Brasileiro de Capoeira, em Espírito Santo, em novembro”, ressaltou Nelsival.

Durante o curso foram demonstradas as técnicas de arbitragem, táticas de jogo, lutas e condutas anti-desportivas e gerenciamento de conflitos na arbitragem. Estiveram em pauta assuntos como: histórico da capoeira no Brasil; ética e relações humanas na capoeira; anatomia, fisiologia e atendimento pré-hospitalar; regulamento das competições de capoeira esportiva; organização e legislação desportiva da capoeira; área de competição e as orquestras; critérios de competição e torneios; equipe de arbitragem e o trabalho em equipe; técnica de arbitragem, aplicação das regras; organização de súmulas; cânticos e instrumentos; e o regulamento das competições de musicalidade.

Para muitos participantes, os assuntos eram tratados como grandes novidades. “Como a capoeira em Salvador nunca foi desportiva e sim cultural, cada um se acha dono da própria verdade, e muitos não aceitam as regras. Apesar da dificuldade que tivemos para ensinar, devido aos assuntos serem motivo de surpresa para muitos, acredito que, com empenho, e continuação da qualificação no setor, possam sair grandes árbitros da Bahia, que é a pioneira da modalidade, e tem muita gente com talento”, ressaltou o vice-presidente técnico desportivo da Confederação Brasileira, Antônio Afonso.

Os olhares atentos do alunado demonstravam a vontade de aprender e de estar sempre crescendo, apesar da vasta experiência de muitos na prática da capoeira. “Quando cheguei, no primeiro dia de aula, pensei: eu sou a mais inexperiente aqui. O grupo de participantes está formado por vários mestres consagrados, com anos de capoeira, achei que seria tudo mais difícil para mim, mas fui surpreendida de forma positiva, pois estudo a matéria capoeira na faculdade, ela faz parte da minha grade curricular, e já tinha visto as regras, que para muitos era novidade, isso me ajudou bastante a aprender a prática, porque não desconhecia o regulamento competitivo”, salientou a estudante de Educação Física da UCsal, Maria Iracema, que está no sétimo semestre, e também é uma das diversas mulheres que aderiram à prática da capoeira, esporte considerado durante muitos anos, apenas masculino. “Hoje temos várias mulheres que praticam capoeira, inclusive, em muitas academias elas estão até em maior número. Na Bahia temos quatro que já são mestras”, lembrou Nelsival.

A capoeira, que durante muitos anos foi disseminada apenas no Brasil, hoje já está presente em diversos países do mundo, como: China, Japão, Rússia, Iraque e Arábia Saudita. “Tenho uma academia com 150 alunos no exterior. Com os aprendizados desse curso, pretendo passar os meus conhecimentos para eles, para que, em breve, possamos contar com competições a nível internacional”, sinalizou Mestre Alabama, que acompanhou as aulas.

Durante a parte prática do curso, foi demonstrado que, nas provas, três árbitros formam a comissão julgadora. Além do mesário e do ritmo (grupo que toca os instrumentos), os atletas são divididos por idade e peso, nas categorias, individual, dupla e conjunto. “A luta é dividida em dois tempos de dois minutos cada, sendo um jogado com movimentos da capoeira de angola e outro da forma regional, o árbitro central escolhe os competidores que entrarão em confronto, e após quatro baterias é conhecido o campeão, de acordo com o somatório de pontos de cada um, o que alcança o maior número vence, sendo que os integrantes recebem notas da arbitragem, ao término de cada confronto. O mais interessante é que não há contatos físicos, o julgamento é de acordo com os movimentos apresentados” explicou Mestre Neguinho.

Segundo o Presidente da federação da Bahia, quando se falava de competição de capoeira em Salvador, todos imaginavam um combate. “Aqui todo mundo acha, que competição é luta, pancada, e não é isso. A capoeira tem fundamentos, regras, e não tem nada a ver com a violência e sim com arte-marcial bem desenvolvida e aplicada com espírito esportivo”, concluiu Nelsival.

Viviane Rezende DRT – 3432
Ascom/Sudesb

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