O Barradão jamais pode ser cedido ao Bahia

Eu devia ter uns 10 anos quando fui apresentado à Toca do Leão. Confesso que foi um choque. Era preciso atravessar a lama. O ambiente era hostil. O que mais me chamava atenção e assustava, no entanto, era o vai-e-vem frenético de caçambas despejando toneladas de lixo em volta do local. Homens, mulheres e crianças disputando com animais cada resto de comida. Uma cena dantesca.

Acompanhar um treino não era nada confortável. Ficávamos em pé. Os jogadores tentavam se equilibrar num campo com pouca grama e muitos, muitos buracos. Apesar da aventura e do sacrifício era legal está perto de ídolos como Bagatini, Otávio Souto, Wilton, Zé Júlio, Tadeu Macrini. Naquelas condições era difícil ganhar. Ganhávamos pouco. Os títulos eram raros. A infra-estrutura não ajudava. Éramos ridicularizados. “Sofredores”, zombavam os rivais.

O tempo deu um pulo e voltas. Diria, muitas voltas. E então pude acompanhar a transformação de meu Vitória num clube de futebol. As caçambas em ritmo frenético agora retiravam milhares de metros cúbicos de terra num trabalho fantástico de terraplanagem. Em pouco tempo o campo estava pronto. Depois, os primeiros lances de arquibancadas. O primeiro jogo oficial contra o Santos, depois com o Olimpia, do Paraguai. A inauguração da iluminação. As ampliações. Os inúmeros títulos. As goleadas implacáveis contra o arquirival. As decepções – pouquíssimas é verdade. Os craques que ali passaram e passam: Petkovic, Alex Alves, Bebeto, Dida, Júnior, Fábio Costa, Matuzalém, Adaílton, Edílson, Túlio, Ramon Menezes, Vampeta, Nadson, Fábio Bilica. O fim do lixo, o surgimento de conjuntos habitacionais, a cidadania. Vi tudo de perto. Um privilégio.

O Barradão sempre foi vítima de uma campanha malvada. O estádio é para os rubro-negros uma extensão de suas casas.

E quantas bobagens foram ditas sobre o Estádio Manoel Barradas, numa campanha malvada contra um patrimônio que trouxe inúmeros benefícios a milhares de pessoas independente de preferência clubística? “Lixão! Barralixo”, detonavam os tricolores. Pior: nunca nenhum dirigente do Bahia teve qualquer gesto de boa vontade com o estádio. Muito pelo contrário.

Agora querem usá-lo. Lá, no Barradão, não!

O Barradão é para nós rubro-negros uma extensão de nossas casas. E isto é visível no zelo da torcida. Como se comporta nos banheiros e bares. Fazer xixi nos muros em volta do estádio só em casos extremos e olhe lá. Invadir campo para arrancar grama e destruir proteção de banco de reservas está fora de cogitação. Jogar pedras em jogadores, jamais. Evitamos até encostar no alambrado com receio de danificá-lo. Cuidamos de tudo com carinho. Duvido que outra torcida tenha comportamento parecido.

Chega a ser cômico observar o drama do Bahia. Usaram e abusaram da Fonte Nova durante anos. Era o santuário tricolor. Mas, ao contrário dos rubro-negros, intensificaram o processo de destruição. Xixi por toda parte, invasões, arquibancadas em ruínas. Dava medo. A velha Fonte não resistiu a tanta maldade e ruiu. Sem estádio, primeiro os dirigentes tricolores trataram logo de descartar o Barradão. Foram jogar em Camaçari e em Feira e aí, ironicamente, faltou o que mais eles se orgulhavam: a torcida. Sem alternativa, restou o constragimento: pedir o Barradão.

Chega a ser cômico observar o drama tricolor. Era assim que eles frequentavam o estádio rubro-negro e agora se humilham.

Logo o Barradão que eles tanto humilharam e menosprezaram durante anos. É isto que os rubro-negros não engolem. Pior é a falta do gesto de boa vontade. Mesmo agora quando tanto precisam. Um gesto nobre. Por exemplo: uma nota pública reconhecendo a importância do Barradão, se desculpando pela palhaçada de 1999 e por tantas outras e pedindo, humildemente, a cessão do estádio. Para ter peso, a nota teria que ser assinada por dirigentes e líderes de torcidas do Bahia e publicada em todos os jornais da cidade. Alguém acredita num ato desses? Eu não.

Também não sei se seria suficiente para aquebrantar os corações rubro-negros. O meu, pelo menos, não conseguiria. Não consigo sequer imaginar o espaço das Imbatíveis sendo ocupado pela Bamor.

O Bahia é imenso e, certamente, sairá desta crise, como saiu de tantas outras, sem precisar do estádio do grande rival. Tenho certeza que o tricolor nem ficaria à vontade jogando por lá. Seria um estranho no ninho, ou como diriam eles, um estranho no “lixão”. Aos dirigentes rubro-negros um pedido: vocês não podem cair na asneira de ceder a nossa casa.
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