O retorno do futebol é preciso. O momento não é preciso

"a humanidade já começou o milênio perdendo de 7 x 1..."

Foto: Fernando Torres/CBF

O retorno do futebol é preciso, o momento não é preciso. No momento a Arena Brasil, é a segunda em perdas humanas em todo o mundo, em razão do COVID-19. Vidas reduzidas a números, e estatísticas aterradoras. Avôs, pais, filhos, irmãos, tios, primos, netos, amigos, são torcedores, mas sobretudo são são vidas, que neste instante disputam o que pode ser sua última partida desta vida, sem chance de revanche. Muitos já deixaram e muitos poderão deixar o campo da vida definitivamente, vítima da pandemia e sobretudo do descaso com ela é tratada por aqui. Em uma partida de futebol, está implícito três opções ganhar, empatar ou perder, faz parte do espetáculo, contudo outras mais haverá de ter, no mesmo contexto ou não, mas o certo é que haverá de ter.

 

Ganha-se, empata-se, perde-se, mas a vida dos clubes permanece pronta para mais um novo desafio. Se o Bahia perder, empatar ou ganhar será mais uma partida entre todas mais que já participou, pode até em certos casos arrefecer o amor do seu torcedor, nada demais, os torcedores somos passionais mesmos, mas a vida do clube continua…

Não será o jogo da vida ou morte, será simplesmente mais um jogo. No entanto no decorrer dessa disputa, há quem, estará no leito de morte, entre essa e a vida, se perder a partida será a derradeira, não mais familiares, não mais amigos, não mais BBMP. Enquanto no campo o futebol ganha vida, a vida perde vidas no leito hospitalar, sob júbilo e apupos inauditos jaz mais um gol contra à vida.

E quem são os enfermos vítima do COVID-19, são pessoas como a citadas, que pode ser nós, nossos parentes, nossos amigos, nossos tricolores queridos. Pode ou não haver laços consanguíneos ou fraternais, mas há um laço indissolúvel entre nós, são vidas humanas, vidas humanas importam, mas que qualquer outro bem dessa vida.

Enquanto centenas disputam fervorosamente, com fé, rezas, lágrimas, promessas para todos os santos, o mata-mata pela vida, haverá um jogo que poderia ser jogado em um momento propício. O mata-mata pela vida, não é mera expressão de efeito, são vidas em jogo que só pode ter um vencedor: A vida. Que se perdida implicará em outras vidas em envoltas em saudades que não acabará mais… O retorno do futebol é preciso, o momento não é preciso. Os dados estão aí e contra a eles não há argumentação plausível para justificar seu precipitado retorno.

A questão em jogo, não se resume só em comemorar ou não um gol, enquanto o vizinho chora a sua dor de ter enterrado seu ente querido. É muita mais mórbida do que imagina nossa frágil sensibilidade de empatia ao outro. No começo de mais um, novo milênio, nossa cegueira à alteridade, ao sofrimento do outro continua a fazer vítimas, ontem senhor feudal e servos, senhor e escravos, colonizadores e colonizados, holocaustos negros; indígenas e judeus, deixando de lado o anacronismo, foram todos vítimas de si mesmo; da falta de empatia humana.

E parece-me que começamos o novo milênio, sem aprendermos as lições dos anteriores. Até quando meu Deus? Os valores fundamentais da civilização humana: da solidariedade; da fraternidade; da liberdade; da igualdade; da empatia, os princípios cristãos jazem como expressões ocas. Os dois últimos milênios foram embalde, embora houvesse ensinado, nada aprendemos, continuamos repetindo os mesmos erros. Somos repetentes, mas até quando meu Deus?

O Bahia mesmo tendo uma diretoria dinâmica, visionária, que envida esforços, para o mesmo deixe de ser “vira-lata”, mero figurante, como a maiorias dos times do mesmo patamar, não conseguiu evitar este retorno precipitado. Os demais dirigentes de clubes, federações e governos, continuam sendo os mesmos vira-latas de sempre, poderiam ter feito a diferença, foram mais um Flamengo da vida, pregando a volta sob qualquer preço.

É, a humanidade já começou o milênio perdendo de 7 x 1, para insensibilidade, para falta de empatia. Quantos torcedores do Bahia morreram no decorrer dessa partida, vítimas do COVID-19. E não verão mais um só jogo, do clube do coração, enquanto este possivelmente comemorará mais uma “vitória”. Ganha-se o retorno do futebol, mesmo que muitos percam suas vidas e, ganhem um campo de sete palmos de terra.

Triste, retorno que só ganha parte dos humanos, que não agem como inumanos. Como não fizesse parte da humanidade. É claro que o retornar do futebol é preciso. O momento não é preciso.

Antônio Lázaro Lima Sampaio, torcedor do Bahia e colaborador do Futebol Bahiano.

 

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