“Temos nosso George todo dia, toda semana”, diz Roger Machado

"Quando é na favela, joga a sombra da dúvida", disse o treinador

Não é de hoje que o técnico Roger Machado vem aproveitando a posição que tem no esporte para tratar sobre questões que precisam ser debatidas e, principalmente, combatidas. Um treinador que gosta de discutir conceitos, que não se prende numa única ideia, uma voz firme do futebol brasileiro. O racismo é uma questão bastante debatida pelo treinador e desde sua chegada ao Esporte Clube Bahia, está engajado nas causas que o próprio clube promove, ações para debater e combater o racismo, a violência contra a mulher, a homofobia, entre tantas outras. A história de “somos todos iguais” não convence o treinador, que pergunta: “se somos todos iguais, nós temos que ser iguais a quem? A quem eu preciso ser igual pra ser aceito? A qual cultura eu preciso pertencer pra ser aceito?”. 

 

Em entrevista ao Fora de Jogo, do Esporte Interativo, Roger Machado, treinador do Bahia, também falou sobre a morte de George Floyd, homem negro que foi morto por um policial branco, de uma forma cruel. Mesmo algemado, desarmado e implorando por sua vida várias vezes. Roger afirmou que o Brasil tem os próprios casos ‘George Floyd’ toda semana. A grande diferença, segundo o técnico, é que como a maioria das mortes deste tipo no país acontece na periferia, há sempre a dúvida sobre a inocência da vítima.

“Temos nosso George todo dia, toda semana. A primeira coisa que me vem à cabeça é que me parece que é diferente acontecer lá fora do que acontecer por bala perdida na favela. Quando é na favela, joga a sombra da dúvida, ‘será que era inocente mesmo?’. Isso porque está na periferia. Tudo o que vem de fora nos impacta mais e isso reverberou no mundo todo. A gente vê as movimentações e manifestações espalhadas pelo mundo. É muito triste porque essa violência letal, brutal foi cometida por quem deveria zelar pela vida, que é o Estado. E a gente está vivendo uma onda pelo mundo de desconstrução de direitos civis adquiridos há muito tempo, com muita luta. Isso também é um motivador para essas lutas pelo mundo”, declarou o treinador.

Os protestos pela morte de George Floyd seguem acontecendo nos Estados Unidos. Na última terça-feira, muitas pessoas aderiram, aqui no Brasil, ao movimento BlackOutTuesday, que tinha o objetivo de parar tudo, de silenciar pra ouvir as vozes negras. O que aconteceu foi uma enxurrada de quadrados pretos postados nas redes sociais com a hashtag #BlackOutTuesday. Roger entende que todo tipo de manifestação, de apoio, é positivo, porém, ressaltou que o negro carece é visibilidade. Ano passado, Roger falou com muita propriedade quando ele e Marcão, os únicos técnicos negros na Série A naquele momento, se enfrentaram no Maracanã em duelo entre Bahia e Fluminense. O discurso foi contundente. Hoje, não foi diferente.

“O que o negro carece é visibilidade. O que os séculos de escravidão e a inércia do Estado com relação a políticas adequadas promoveram foi a invisibilidade do povo. Não existe justiça social sem diálogo. Temos que dialogar. Algumas pessoas dizem que não se deve falar sobre racismo porque isso gera ondas de preconceito. Mas é o contrário. Não conhecer, não ter discernimento sobre assunto é o que gera esses atos. Em muitos momentos, o que desejam é que o negro se convença que tem uma tendência criminosa porque ele está mais na cadeia. E que ele não está em cargos de gestão porque ele é menos inteligente. Isso é efeito do processo, não é a causa. Isso é ignorância”, complementou.

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