Zagueiro relembra início pelo Bahia e comenta atual momento na Rússia

Rodrigo Becão falou sobre as melhores lembranças do Bahia

Emprestado pelo Bahia, o zagueiro Rodrigo Becão aos poucos vai ganhando notoriedade no futebol internacional e conquistando seu espaço no CSKA Moscou, da Rússia. Aos 22 anos, o defensor rapidamente virou titular e estreou na Supercopa vencida pelo CSKA no clássico contra o Lokomotiv. Antes de desembarcar em solo russo, o baiano de 1,91m fez apenas 20 jogos pelo time profissional do Esquadrão, a maioria saindo do banco.

Nesta terça-feira, Becão estará em campo pela cobiçada Champions League e terá a missão de parar o ataque do poderoso Real Madrid, atual tricampeão do torneio. O jogo válido pela segunda rodada da fase de grupos da competição acontece às 16h na Rússia.

Em entrevista ao ESPN, o jogador falou sobre as dificuldades financeiras na infância, época em que ajudava o pai fazendo ‘bicos’ de pedreiro. Falou também sobre sua chegada no Bahia e início de carreira, além de relembrar os melhores momentos pelo tricolor baiano. Ele também falou sobre a amizade com Mário Fernandes, racismo na Rússia e o duelo contra o Real Madrid.

Veja abaixo a entrevista com Rodrigo Becão ao site ESPN:



ESPN – Como foi sua infância? Passou por dificuldades financeiras?
Rodrigo Becão – Eu costumo falar que eu tive uma infância rica, não uma riqueza de valores materiais, mas uma riqueza no sentido de ter aproveitado o máximo da minha infância, de ter feito coisas que toda criança deseja e sonha fazer. Mas em meio a toda essa curtição eu aprendi a assumir as responsabilidades da vida muito cedo. Passei a trabalhar ainda criança. O pouco que ganhava eu tentava agradar aos meus pais e me agradar também. Graças a Deus aprendi a correr atrás do que eu quero, sem precisar tomar de alguém, sem pisar em ninguém, meu país me ensinaram a ser digno e honesto. Venho de uma família humilde onde meus pais tiveram que ralar muito para me criar, me educar, me fazer o homem que eu sou hoje. Tudo sempre com dificuldade, até hoje nas nossas vidas as coisas acontecem desta forma. Meu pai hoje está desempregado, mas continua correndo atrás e nunca se sentiu confortável com essa situação. Minha mãe tem o emprego dela, graças a Deus, sempre guerreira.

ESPN – Você chegou a trabalhar em algo antes de ser jogador?
Rodrigo Becão – Eu não cheguei a ter um emprego fora do futebol, mas quando era mais jovem fazia alguns ‘bicos’, como chamamos na Bahia. Às vezes de ajudante de pedreiro, ajudante de pintor, algo que fosse gerar algum trocado, o que pintasse no momento eu fazia. Eu tenho um amigo que trabalha como pedreiro até hoje e sempre que tinha serviços ele me chamava pra trabalhar com ele. Com cada trocado que ganhava dava para dividir às vezes com meu pai, às vezes com minha mãe, para não ter ciúmes (risos).

ESPN – E como surgiu o futebol? Fez testes em quais times até chegar ao Bahia?
Rodrigo Becão – O futebol surgiu na minha vida através da paixão que eu sinto pelo esporte. Desde pequeno sempre acompanhei meu pai nos jogos dele em partidas amadoras, daí eu fui me aproximando mais ainda e me apegando cada dia mais pelo esporte. Eu fiz alguns teste em clubes na minha vida, não foram muitos, até porque eu comecei a jogar futebol tarde, fiz testes em alguns clubes de Salvador como Ypiranga e Atlântico, na base do Fluminense do Rio também em 2012. Desses clubes citados o único que eu cheguei a disputar alguma competição foi o Atlântico os outros dois me deram zero de aproveitamento (risos). Hoje com muito suor e trabalho eu venho conseguindo conquistar meus objetivos e ao lembrar de certas situações do passado, chega a ser um pouco engraçado. Eu venho conseguido dar a volta por cima das dificuldades.

ESPN – Como chegou ao Bahia?
Rodrigo Becão – Eu fui fazer teste no Bahia por meio de uma amigo. Cheguei lá em 2013 e estava até o início desse ano, durante todo esse período pude aprender muito conceitos do futebol, aprimorar minhas qualidades e corrigir meu defeitos. Devo bastante ao Esporte Clube Bahia, lá eu fiz amigos, e participei de momentos que vou levar pra toda vida.

ESPN – Já atuou em outras posição? Como surgiu o apelido de Becão?
Rodrigo Becão – Só joguei em outras posições em peladas, mais jovem. O apelido “Becão” foi um ex-treinador que eu tive na base do Bahia Paulo Sales, que chamava todos os zagueiros de beque. Por eu ser um dos mais altos, só colocou a palavra no aumentativo mesmo (risos).

ESPN – Quais as melhores lembranças do Bahia? Sua passagem foi bem curta…
Rodrigo Becão – Virei profissional assim que encerrei meu ciclo na base e fiquei feliz por ter cumprido os objetivos. O que me marcou bastante no Bahia era o modos no qual todos treinadores que eu trabalhei me tratavam. Eles sempre me cobravam bastante, uma cobrança boa porque sabiam que eu poderia corresponder à altura. Isso me ajudou a crescer não só como profissional, mas como homem e vou levar para toda a vida.

ESPN – Como foram os primeiros dias na Rússia? Foi difícil a adaptação?
Rodrigo Becão – Os primeiros dias na Rússia foram todos dentro do esperado. Imaginava ser bem difícil à comunicação, como é até hoje, mas as pessoas que estão próximas a mim me ajudam bastante e facilitam. A maior dificuldade acredito que esteja chegando aos poucos que é o frio, o resto a gente dá um jeito.

ESPN – Imaginou que conseguiria jogar tão rapidamente no CSKA?
Rodrigo Becão – Quando eu vim para cá meu objetivo era jogar, claro que sempre respeitei e vou respeitar todos meus companheiros, mas sempre procuro trabalhar para conseguir meu espaço, por isso não me surpreendi, as coisas aqui aconteceram rapidamente, e Graças a Deus eu conseguir corresponder.

ESPN – O Mário Fernandes, brasileiro naturalizado russo, te ajuda?
Rodrigo Becão – Eu e o Mário procuramos conversar a todo instante, um ajudando ao outro dentro de campo. O Mário além de ser um profissional exemplar é uma pessoa super do bem, agradeço pela amizade dele.

ESPN – Como é jogar uma Champions League? Como pretendem parar o Real Madrid?
Rodrigo Becão – Jogar uma competição do nível da Champions League é fantástico. Tenho consciência que eu estou tendo um privilégio porque é para pouco. Fico muito feliz de estar realizando mais um sonho em minha vida. Sobre o jogo contra Real, sabemos do alto nível da equipe deles, a gente vem trabalhando forte e tomando todas as precauções possíveis para evitar surpresas. Estamos motivados e esperamos fazer uma bela partida e sair com o triunfo.

ESPN – Você já foi vítima de racismo na Rússia?
Rodrigo Becão – Graças a Deus não fui vítima de racismo ainda, espero que isso não venha acontecer. No século em que estamos não cabe mais atos desse nível, mas não sei o que pode acontecer mais lá pra frente. Espero que nunca aconteça, mas se um dia vir a acontecer, que nesse dia eu esteja equilibrado e saiba lhe dar com a situação assim como fez Daniel Alves quando jogaram banana nele.

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