Sucesso do Real Madrid e Barcelona e a ousadia do rubro-negro Paulo Carneiro

A genialidade e grande visão de Marketing de dois presidentes de times rivais que com ousadia transformaram a realidade dos seus seu clubes.

Em 2003, o Barcelona estava completamente atolado em dívidas, que ultrapassava os US$ 230 milhões, teve que vender seu terreno que era destinado à construção do seu centro de treinamento, e continuou longe de conseguir saldar suas dívidas. O time patinava nas últimas colocações do Campeonato Espanhol. Em meio à grande crise houve a renúncia do seu presidente Joan Gaspart, o clube tinha metas bem modestas no campeonato espanhol, era garantir somente uma vaga na copa da UEFA, mas o sonho de consumo do time era conseguir um título europeu que, além de prestígio lhe renderia US$ 50 milhões. Porém, a realidade do Barcelona mudou quando um candidato a presidente que não era favorito (Joan Laporta) prometia como uma jogada estratégica e inteligente, se eleito, já havia um acordo para a contratação de David Beckham que era o grande astro do Manchester United, que na verdade já estava acertado pelo Real.

Isso o fez vencer as eleições e, ao invés de trazer David Beckham, como havia prometido, sua jogada foi bem mais primorosa e ousada numa verdadeira jogada de mestre. Trouxe a grande estrela do Paris Saint-Germain, o craque Ronaldinho Gaúcho, por 25 milhões de euros. O brasileiro na época que chegou, o Barcelona estava há quatro anos sem ganhar um Espanhol e onze sem ganhar a Liga dos Campões que até então só havia conquistado uma vez. O impacto da sua vinda foi tamanha que o clube bateu todos os recordes na vendagem de camisa superando e muito Beckham que foi considerado fenômeno nas vendagens pelo Real. Já em 2004 e 2005, Ronaldinho era eleito pela FIFA como melhor jogador do mundo e pela UEFA o melhor atacante, o sucesso para finanças do clube foi tamanha que na temporada seguinte o Barça já tinha dinheiro e contratou Deco e Samuel Eto’o. Há quem diga que o Barcelona era um antes de Ronaldinho e depois dele virou outro. Durante os cincos anos de Ronaldinho pelo Barça ele conquistou: Duas Ligas Espanholas, uma Liga dos campeões, duas Super Copa da Espanha, e Três Copas da Catalunha.

Enquanto o Real em 2003 já navegava em águas bem mais tranquilas diferente da sua realidade de um ano e meio atrás que atravessara uma crise tendo que vender seu centro de treinamento por US$ 250 milhões, o presidente Florentino Perez vislumbrando estritamente alavancar área de Marketing contratou Beckham por 37,5 milhões de euros, valor pago somente com a vendagem de camisa. Beckham superou todas as expectativas e tornou-se uma verdadeira mina de ouro para o Real, segundo declaração do presidente Florentino Perez, dos cincos contratados mais caros do Real ele foi quem deu maior retorno financeiro, nos seis primeiros meses o Real vendeu 1 milhão de camisas com seu nome, nos dois anos seguintes, o clube aumentou 60% as vendas de merchandising e 137% as receitas oriundas de patrocinadores. O time dos Galácticos como era chamado proporcionavam espetáculos por onde passava, só em uma turnê por Japão, Malásia, Tailândia e Vietnã em apenas 10 dias recebeu dos patrocinadores 14 milhões de euros.



Essa opulência faz parte de uma filosofia de gestão que transformou esses clubes de futebol em máquinas milionárias. Em vez de gasto, eles consideram a aquisição de Super Craques como investimentos, uma alavanca para arrebatar mais recursos com direito de transmissão, novos contratos de publicidade, merchandising e licenciamento de produtos. O último balancete divulgado pelo Real suas receitas da temporada 2016/2017, o clube faturou 674,6 milhões de euros, o equivalente a R$ 2,52 bilhões, seu lucro líquido foi de 21,4 milhões de euros, já o balancete econômico da temporada 2016/2017 do Barcelona que saiu de 2003 com sérias dificuldades financeiras, teve um faturamento recorde na história do clube de 708 milhões de euros, gerando um lucro líquido de 18 milhões de euros.

Não quero com isso comparar nossa realidade com a realidade do Futebol Europeu, longe disso, mas, as mentalidades dos dirigentes que através da ousadia e visão transformou a realidade dos seus clubes, falo isso porque no futebol da Bahia entre nossos dirigentes tivemos poucos visionários e dentre eles os que eu considero um, não acompanhei toda sua história porque ainda não era nascido, mas através de relatos o Osório Vilas Boas não foi só o primeiro campeão brasileiro, ele foi ainda vice-campeão brasileiro por mais duas vezes em 1961 e 1963. O Bahia era sempre competitivo contra qualquer time do Brasil, já criança acompanhei a sua grande ousadia para época, trazer duas grandes revelações do Santos, Douglas e Picolé. Douglas foi na minha opinião o verdadeiro craque que vi jogar com a camisa do Bahia e vê-lo jogar era prazeroso.

Outro dirigente que já me pronunciei a respeito da sua capacidade aqui no texto sobre Política, Futebol e Modernização do Bahia, foi Antônio Pithon, não irei repetir para não alongar. O outro foi o polêmico Paulo Carneiro, pegou o Vitória todo endividado sem grande visibilidade no futebol brasileiro, organizou o clube, transformou completamente sua realidade e conseguiu ser Vice-Campeão Brasileiro, e numa jogada de grande ousadia trouxe dois grandes craques para o time dando uma grande visibilidade no futebol brasileiro: Petkovic que pertencia ao Real Madrid e Bebeto que ainda estava em boa performance e jogava também na Espanha pelo Sevilla. Em 1994, tinha ganho a Copa do Mundo para o Brasil, formando excelente dupla com Romário.

Lembro-me da entrevista para formalizar a contratação de Bebeto em um BA x Vi na Fonte Nova. A torcida do Bahia tomava quase todo estádio e era torcida dividida (antes não existia quantitativos de ingressos para cada torcida o que separava era o local), quando foi entrevistado o presidente Carneiro falou: “Eu queria era ter uma torcida dessa para ver o que eu iria fazer”.

Com essa grande jogada, ele alavancou o número de torcedores do rival principalmente na faixa etária mais nova porque ainda era fresca a sua excelente participação na Copa, o seu grande problema sempre foi seu temperamento chegando às vezes ser arrogante no trato com as pessoas, mas, é difícil fazer esse julgamento porque os bastidores do futebol são fétidos e talvez se ele não tivesse essa postura, não estaria vivo, teria o mesmo fim de Pithon, por isso que a turma do jabá se arrepia quando ouve o nome dele e ele não poupava nem os seus “amigos”. Lembro-me de uma entrevista a um desses “amigos” que era um grande puxa saco dizia a ele: “Paulinho aqui na nossa emissora nós damos muito espaço para o Vitória diferente do que acontece nas outras emissoras”, esperando um elogio, ele sem pestanejar retrucou “Você não esta fazendo nenhum favor para mim, isso não passa de sua obrigação” ao vivo. O cara todo sem graça disse “Paulinho é gente boa agora é cabeça quente vamos chamar o comercial enquanto ele esfria a cabeça “.

Essa reflexão serve para mostrar que a melhor maneira de superar a crise é com inteligência e visão. A capacidade tanto financeira como técnica dos nossos clubes é reflexo dos dirigentes que temos. Vemos jogadores ganharem salários astronômicos na Europa e seus clubes com grandes lucros, porque eles têm uma capacidade administrativa e inteligência para enxergar muito além do que consegue enxergar nossos dirigentes. Precisamos de dirigentes bem mais ousados e menos tecnocratas e burocratas. Os planos de sócio do Bahia são fantásticos, camisa oficial, descontos em centenas de empresas de vários segmentos, ingressos garantidos, no final saem quase de graça, e porque não temos mais de quarenta mil sócios???

Porque tudo isso é bom, muito bacana, mas, o fundamental é conquistar títulos importantes, ter no elenco jogadores com qualidade e técnicos competentes para voltarmos a ter prazer em irmos ao estádio e deixarmos de assistir partidas medíocres em total desrespeito ao torcedor, e com tanto desencanto e maltrato a cada ano que passa ele arrefece e o número vai diminuindo nos estádios. Perder título para um time modesto como Sampaio Corrêa representou um grande prejuízo financeiro de R$ 4 milhões, podendo ainda ser bem maior. Bastaria apenas passar mais fases na Copa do Brasil, ganharia mais R$ 3 milhões, quem pagará esse prejuízo ao clube, em um texto aqui falei das diversas demonstrações de amor da sua torcida com clube em vários momentos dele e ela merecia uma homenagem, e a reciprocidade sempre foi muito pequena.

Todos esses exemplos de sucessos dos grandes clubes no mundo só foram possíveis porque todos eles tiveram um lastro fundamental, uma grande torcida para tornar seus sonhos em realidade. Também temos um manancial enorme de combustíveis necessários para transformar a realidade dos nossos clubes, que é uma apaixonada nação de torcedores, precisamos apenas dirigentes com um pouco mais de visão para incendiar nosso futebol. Dirigentes Bitolados e Burocratas, Times e Receitas Medíocres, Dirigentes Inteligentes e Ousados, Receitas e Títulos em Abundância.

Jorge Machado, torcedor do Bahia, amigo e colaborador do Futebol Bahiano.

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