Um olhar terapêutico sobre a tragédia do BAVI.

BA-VI De quem foi a culpa? Existe culpado?

As lamentáveis cenas a que o público assistiu neste final de semana são o assunto em toda a Bahia e até fora dela. Um misto de sentimento de raiva, impotência e profunda tristeza com uma das maiores diversões justas de nós brasileiros – o futebol. Várias são as perguntas que se fazem hoje: O que justifica tamanha violência de jogadores que ganham tão bem e deveriam ser profissionais? Por que não conseguem parar? De quem foi a culpa? Existe culpado?

Eu posso começar dizendo que provocar faz parte de todo o jogo, agredir e violentar não. A boa provocação é o marketing que alimenta qualquer tipo de competição. Jogos sem “apostas” e provocações tendem a ser tão frios como jogo de xadrez na Antártida. No caso específico dos times Bahia e Vitória o que movimenta grande parte da audiência dos jogos é o “fazer parte” de um dos dois grupos e o defender com “amor” e paixão a sua bandeira. Se não houvesse rivalidade e o “dia após” da provocação a quem perde, não existiria campeonato – isso já é marca cultural. Até numa partida de Damas tem provocação, em um bom dominó, no vôlei, basquete, tênis – isso é algo indissociável da prática esportiva, principalmente no Brasil, onde o nosso povo tem uma necessidade maior de reparação histórica, nos deixando mais histéricos nos enfrentamentos.

O que aconteceu no BAVI, psicoterapeuticamente falando foi um SURTO. No surto, por instantes o cérebro desliga as conexões morais, existenciais e dos limites e deixa o que chamamos de “cérebro reptiliano” agir – a mesma parte do cérebro que uma cobra tem, nós temos. Os circuitos de identificação com o que nos diferenciam de selvagens é desligado, e no surto não se age com lucidez. A depender do nível de educação, ecossistema familiar, conflitos não assimilados o SURTO por ser de maior ou menor duração.

Olhando para a partida vemos o atacante Vinícius do Bahia indo comemorar um gol frente à torcida adversária com uma coreografia que é típica dele – nada foi criado naquele lugar. Isso não foi um surto – foi uma decisão em um ato de alegria e desabafo. O jogador havia durante a semana provocado o rival. O que acontece em seguida começa a desenhar o surto. O goleiro do Vitória que nem viu a dancinha por estar de costas é avisado por alguém e vai tirar satisfação com o atacante do Bahia. Isto também não foi um surto. O goleiro do Vitória foi fazer “seu papel” de desaprovação ao ato de provocação à sua torcida. Mas ao fazer isso, acionou um “gatilho de surto” em outros atletas que tiveram sua capacidade de entendimento deturpadas pela emoção e partiram para a questão animal. Esta é uma visão terapêutica e não de torcedor.

O goleiro do Vitória tenta, em claro “deu merda o que fiz”, proteger o atacante do Bahia e ao mesmo tempo na agonia, o “impede” de fugir – não vi maldade na ação do goleiro nem na do atacante – eles deveriam ser advertidos e punidos caso o árbitro entendesse isso. O problema real foi de quem entrou em surto, e por desequilíbrio pessoal virou animal descontrolado e nos impactou de forma nojenta e repugnante. Estávamos com nossos filhos na sala da TV ou até no estádio celebrando com eles um clássico, e ver o que vimos é cortante. A cena do jogador Kanú do Vitória é de perto a mais grotesca, ele desfere em alguém que não pode se defender dois socos frontais para machucar, matar e ferir sua presa. Não sei do histórico do atleta, mas não se surta muitas vezes não…. Se isso for típico dele, isso pode ser caso que exija maior cuidado. Aí então para delírio dos delinquentes que apoiam este tipo de conduta a festa acaba de um jeito trágico. Pois pasmem, nos grupos organizados há quem aprove totalmente o acontecido.

O que ocorre depois de selvageria onde perdemos a noção de quem se defende, reage ou ataca é a polêmica ordem do técnico Mancini de pedir para um jogador ser expulso e assim acabar a partida. Não vou julgar ele, pois a depender de que lado estejamos, talvez torcêssemos para nosso técnico fazer o mesmo – vamos ser sinceros e sem hipocrisia – ninguém quer ver seu time tomar de goleada do adversário. O mais feio foi o técnico desafiar a imprensa a mostrar provas e ser desmascarado pela própria. Isso também não foi surto, foi decisão.

Acredito que as duas entidades desportivas devam investir urgente em treinamento emocional para seus jogadores imediatamente. Haverá outros BAVIs este ano, e algo desta dimensão precisa ser constelado, resolvido e dissociado da mente dos jogadores. Aproveito, como psicoterapeuta que sou e com larga experiência em treinamentos coletivos, para anunciar que temos uma Equipe de psicoterapeutas treinados para lidar com a coletividade, e que podemos, se for de interesse de seus presidentes e diretores realizar um trabalho eficiente de dessensibilização do trauma para as duas equipes, com o uso inclusive de técnicas de constelação e reprogramação de trauma. Este texto e esta disponibilidade é o que posso oferecer diante do lamentável contexto, diante de meu papel e habilidade profissional.

por Jordan Campos
www.jordancampos.com.br
Assessoria Externa: 71. 99218-6886

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