Os bastidores do futebol, suas mutretas e a politicagem

"O Futebol é uma caixinha de surpresas"

É provável que em função da sua irreversível imprevisibilidade, o futebol é o esporte que a cada partida reserva um monte de surpresas e muitas emoções, tanto imagináveis como inimagináveis que podem ou não, acontecer no decorrer de uma partida e, não é a toa que alguém adepto desse esporte tão apaixonante, proferiu uma frase que se eternizou tanto no jargão futebolístico que acabou virando clichê, na minha opinião, a máxima mais perfeita e de melhor encaixe para o definição do esporte das multidões, que é a velha, conhecida e sempre repetida frase: “O Futebol é uma caixinha de surpresas”. E é, a pura verdade!

 

Entretanto, além do futebol propriamente dito, disputado dentro das quatro linhas, com 22 jogadores disputando a bola, correndo, marcando, fazendo jogadas de Pelé ou de Gajé, cometendo faltas, enfim, com ou sem a devida técnica ou com ou sem garra ou raça, com cada time objetivando conquistar o melhor resultado possível sendo que, muitas vezes, toda essa luta dentro de campo, torna-se vulnerável ou refém de um acessório muito inerente ao futebol, denominado “bastidores”. E é através dos bastidores, não só em um clube envolvendo problemas disciplinares dentro do próprio grupo, atraso de salários e outras situações ou, fora do clube, por pessoas inidôneas e adeptas a escusos interesses, que são criadas as condições para execução do “jogo sujo” que pode “melar” o resultado de um jogo de futebol dentro de campo.

Se fosse aqui, enumerar e detalhar os escândalos que já foram registrados no futebol, tanto em âmbito nacional como internacional, iria consumir um tempo enorme, porque o futebol é farto em feitos ou malfeitos condenáveis e vou citar alguns que foram amplamente divulgados pela imprensa ou até confirmado pelo próprio protagonista. Começo com um fato doméstico e reprovável que aconteceu na final do Campeonato Baiano de 1967 disputada entre Bahia x Galícia em uma melhor de três, quando o Bahia sob o comando de Paulo Amaral, com um ataque razoável (Biriba, Adauri, China e Canhoteiro), venceu por 1×0 o Galícia, que era comandado pelo técnico Filpo Nuñes e que tinha um ataque arrasador (Nelson, Ouri, Carlinhos e Valtinho), mediado pelo Juiz (na época, era juiz mesmo), Armando Nunes Castanheira da Rosa Marques, o qual, Osório Villas Boas “não queria de jeito nenhum” que ele apitasse o jogo, mas, para “contrariar” o então presidente do Bahia, mesmo o Bahia vencendo o jogo por 1×0, gol marcado por China e sendo campeão, ele acabou se tornando a principal figura do espetáculo, em função do seu “show de arbitragem”, fato muito bem relatado no livro “Futebol: Paixão & Catimba”, pelo próprio autor.

Outro fato que envolveu, também, clubes do futebol da Bahia e que causou muita polêmica na época, aconteceu no Brasileirão de 1996, com a competição ainda sendo disputada por 24 clubes. Bahia e Fluminense disputavam a fuga do rebaixamento, com ambos jogando a última partida fora de casa na última rodada, com o Bahia que tinha 20 pontos ganhos, no fio da navalha para cair, enfrentando o Flamengo em São Januário, enquanto o Fluminense que tinha 19 pontos ganhos, enfrentaria o Vitória no Barradão.

Como o Vitória estava numa posição cômoda na tábua de classificação, tanto fazia perder, empatar ou vencer o jogo, não influenciava em nada, por razões óbvias, acertou com o Fluminense para jogar em Cariacica/ES e acabou sendo derrotado por 3×1 pelo time carioca, resultado que rebaixaria o Bahia, caso o tricolor baiano perdesse ou empatasse seu jogo com o Flamengo. Resumo daquela ópera-bufa: A diretoria do Vitória achou que era impossível o Bahia vencer o Flamengo no estádio de São Januário e aí, resolveu dar uma de João-sem-braço, resolvendo tirar o jogo do Barradão para jogar no interior capixaba, porém, o Bahia se superou e deu um gude-preso no Flamengo, com gol marcado por Edmundo, chegando aos 23 pontos e escapando do rebaixamento, ficando à lamber sabão quem arquitetou toda aquela lambança, enquanto que o Fluminense, mesmo vencendo o Vitória, só chegou aos 22 pontos e, juntamente com o Bragantino que tinha 19 pontos, foram sumariamente rebaixados à Série B.

Saindo do contexto doméstico e migrando para o contexto nacional, o que já teve de trapaça nesse futebol brasileiro, principalmente, a partir de 1970 quando foi instituída a então Loteria Esportiva, não está em nenhum gibi, quando começou um novo tipo de negócio sujo e rentável no Brasil: A indústria da “fabricação” de resultados, quando times que eram favoritos nos jogos, “perdiam” para times inferiores, configurando com a famigerada “zebra”, resultado que era previamente comprado por espertalhões que cravavam suas apostas nas colunas que viriam a apresentar os resultados menos prováveis que simbolizavam o exótico animal.

Mas, o esquema fraudulento que sacudiu, negativamente, o futebol brasileiro e, que ficou conhecido como “A Máfia do Apito” foi detonado em 2005 em uma ampla e consistente reportagem publicada pela Revista Veja, dando conta das falcatruas praticadas por árbitros de futebol que se mancomunavam com investidores que apostavam alto em sites de jogos de futebol para “combinar”, previamente, os resultados das partidas, acordo que beneficiava ambas as partes, mas, em detrimento à lisura e a seriedade do futebol brasileiro, sendo atribuída à chefia e o protagonismo daquela máfia ao Sr. Edilson Pereira de Carvalho, então árbitro da Federação Paulista de Futebol que integrava o quadro Fifa.

As fraudes cometidas que abalaram e enxovalharam a credibilidade do nosso futebol, não só no cenário nacional como no cenário internacional, fizeram com que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva-STJD, através do seu então presidente Luís Zveiter, na tentativa de restaurar a credibilidade do Brasileirão de 2005, resolveu anular as 11 partidas que foram mediadas pelo dito-cujo, as quais, foram novamente disputadas, e o detalhe curioso foi que, 10 partidas apresentaram placares diferentes dos que foram registrados nos jogos anteriores,com exceção do jogo, Internacional 3×2 Coritiba, que teve o placar repetido. Mas, no meu entendimento, o grande prejudicado com todo aquele esquema criminoso, foi o Internacional que tinha um bom time treinado por Muricy Ramalho, fez jogos de alto nível e, durante toda competição era cotado como um dos favoritos para conquistar o título, mas, diante de toda safadeza que aconteceu, só conseguiu ser vice-campeão e, por ironia do destino, o Corinthians, time do coração do suspeito mafioso árbitro, sagrou-se campeão do Brasileirão daquela vergonhosa temporada.

Para não me limitar, apenas, em mutretas de âmbito nacional, não poderia deixar de registrar dois polêmicos fatos registrados em copa do mundo, os quais, atribuo aos bastidores e similares do futebol. O primeiro, aconteceu na Copa do Mundo de 1978 sediada na Argentina, quando os Hermanos foram campeões e o Brasil ficou em 3º lugar, mas, segundo o então treinador Cláudio Coutinho, o Brasil foi o “Campeão Moral”, se é que existe esse tipo de título que satisfaz o ego de algum torcedor. Mais uma vez, a ação dos bastidores entrou em campo na segunda fase da competição, quando Brasil e Argentina antes de enfrentarem, respectivamente, Polônia e Peru, estavam empatados em quase todos os critérios, menos no saldo de gols, com o Brasil tendo um saldo de 2 gols sobre a Argentina, mas, para complicar a situação, os dois jogos não foram disputados simultaneamente e, coube ao Brasil enfrentar a Polônia antes da Argentina enfrentar o Peru.

O Brasil deu 3 x 1 na Polônia e aumentou seu saldo de gols para quatro, só que, a Argentina já entrou em campo sabendo de quanto tinha de ganhar o jogo para disputar a final da competição. Como o Peru já não tinha mais nada a perder e nem à ganhar – pelo menos dentro de campo -, resolveu dar uma “peruada”, levando uma impiedosa goleada da seleção Argentina de 6×0, superando o saldo de gols do Brasi (6×4), foi a final, sagrou-se campeã e o Brasil teve que se contentar com o 3⁰. Lugar, após vencer à Itália pelo placar de 2×1.

Outro polêmico episódio que aconteceu em copa do mundo, já com mais de vinte anos do acontecido e que até hoje, é lembrado nas “resenhas” entre torcedores, foi aquela “caruara” que deu no Ronaldo Fenômeno horas antes do jogo Brasil x França válido pela final da Copa do Mundo de 1998. A Seleção Brasileira fez uma boa campanha em todas as fases de jogos daquela Copa, alimentando a expectativa do povo brasileiro para mais uma conquista de um caneco. Infelizmente, aconteceu esse mistério que já produziu muitas versões, mas, o fato é que entre mentiras e muita conversa fiada envolvendo atletas, treinador, médico da seleção e o próprio Ronaldo e outros personagens, ainda não apareceu um cabra macho para falar a verdade, esclarecendo tudo sobre aquela marmota protagonizada pelo “Fenômeno” que não foi nada de fenomenal, uma verdade que desvendaria todo mistério, dirimindo todas as dúvidas e contradições que envolveu todo aquele imbróglio.

Como podemos observar, é muita mutreta que infesta o futebol, dentro das quatro linhas, mas, já fora de campo – e nos casos que vou abordar, já nem é o extracampo, é a politicagem ou a malandragem que entram em ação. Refiro-me às estranhas e/ou pouco recomendáveis decisões tomadas em conchavos de câmara de vereadores ou assembleias legislativas, para mudanças de nomes de estádios. Aqui mesmo na nossa Região Metropolitana, temos o exemplo do estádio de Camaçari, que inaugurado em 1985 como estádio Municipal de Camaçari, e rebatizado em 1989 com o nome do ex-senador Waldeck Ornelas, em 2005, passaram a esponja e o rebatizaram com o nome do saudoso comentarista Armando Oliveira (nada contra, por se tratar de um grande cronista esportivo) e, já em 2018, por razões que a própria razão desconhece, o legislativo municipal resolveu aprovar uma Lei modificando, pela 3a. vez, o nome do estádio para Fernando Lopes, para mim, um ilustre desconhecido.

Já com referência ao antigo estádio Octávio Mangabeira, infelizmente, quando o estádio foi implodido para ser reconstruído, o nome do eminente político que emprestou seu nome ao estádio, em sua inauguração, se perdeu em meio aos escombros da demolição e quando o estádio foi reinaugurado em 2013, já com a nomenclatura de ARENA, à qual, aliada ao neologismo de “naming rights”, foi celebrado contrato com uma cervejaria para patrocinar e expor sua marca na Arena, com exclusividade, por 10 anos e ainda que continuando apelidada de Fonte Nova, o dinheiro falou mais alto e contribuiu para tirar, definitivamente, da sua fachada, o nome do ilustre governador e “filósofo da baianidade”, Octávio Mangabeira.

Outro fato correlato, embora tenha acontecido em Alagoas, mas, que não deixa de corroborar com os conchavos dos políticos e da politicagem, é com relação ao estádio Rei Pelé em Maceió, inaugurado logo após a conquista do Tri de 1970, cujo nome, foi uma homenagem ao eterno Rei do Futebol, Edson Arantes do Nascimento. No ano passada, a Assembléia Legislativa de Alagoas, resolveu mudar o nome do estádio para “Rainha Marta”, cujo projeto, já foi pelo aprovado pelo Poder Legislativo, faltando a lei ser sancionada pelo Poder Executivo daquele estado. Até o momento, não sei a resolução tomada, mas, achei um grande desrespeito e uma afronta ao melhor e mais famoso jogador de futebol de todos os tempos. Entendo que a atleta Marta, pelo plus que já deu futebol ao brasileiro feminino, merece ser homenageada, mas, de outra forma, sem causar nenhum constrangimento ao Rei do Futebol, até porque, quem é rei, sempre será majestade.

José Antônio Reis, torcedor do Bahia e colaborador do Futebol Bahiano.

 

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