O FUTEBOL E O NORDESTE: UMA RELAÇÃO DE “APARTHEID”

Euclides da Cunha disse que "o sertanejo é antes de tudo, um forte"

Pensei em escrever sobre as declarações do goleiro Felipe Alves em relação a mais uma desastrosa atuação do famigerado VAR e seus manejadores, e poderia ficar somente na seara esportiva, mas, o goleiro nascido em São Paulo, fez fortes declarações sobre a polarização e a clara e manifesta tendência de se beneficiar os clubes do eixo Sul/Sudeste, sobre o espaço que os clubes do nordeste não gozam na mídia, entre outros pontos que o atleta falou com propriedade e mostrou ao Brasil uma verdade que teimam em não ver.

 

Para mostrar que não é um fato isolado, o mesmo arqueiro fez a seguinte declaração em 16/10/2019: “Sentimento ruim, porque mais uma vez o VAR beneficia o time do Rio e prejudica um time do Nordeste. Isso vem acontecendo desde o início do Brasileirão. O Marcelo Paz (presidente do Fortaleza) já se pronunciou sobre isso. Acho que é a quarta ou quinta vez que o VAR age contra um time do Nordeste”, disse após o jogo contra o Flamengo na ocasião. E a história se repete e com certeza ainda haverá muitos mais erros em desfavor à “GEOGRAFIA” dos clubes dessa região do país, que historicamente tem um “APARTHEID” social, econômico e cultural sobre seus ombros.

Euclides da Cunha disse que “o sertanejo é antes de tudo, um forte”, assim o futebol nordestino reconhecidamente sertanejo tem que se mostrar forte, tem que pagar em dias, para que se possam atrair atletas, por exemplo. Infelizmente a receita de boa administração de alguns clubes nordestinos esbarra na geografia e mesmo pagando bem e em dia, alguns atletas simplesmente se recusam e preferem atuar em equipes que devem até as cuecas atrasam salários, mas que estão no Eixo. Equipes essas que, aliás, são punidas por más gestões financeiras, desvios de verbas e outras ‘maracutaias’ recorrentes.

O futebol nordestino, infelizmente, não enxergou que tem que se fortalecer regionalmente, que tem um gigante potencial tanto no âmbito esportivo quanto no político. A competição deve existir entre os clubes da região, contudo, uma liga unida e forte pode ter mais poder político frente à CBF, senão, continuaremos sendo subprodutos e meros votos nas eleições da entidade máxima do futebol.

Numa reportagem de 2017, cujo título “Clubes do Nordeste: gigantes com pés de barro”, o repórter Alexandre Gonzaga definiu com exatidão o que tem que ser revertido quando dispôs que: Torcidas enormes, estádios lotados, paixão exacerbada. Os times do Nordeste carregam há décadas o estigma do “gigante com pés de barro”. Clubes com larga tradição no futebol brasileiro e com grande massa de adeptos, mas que sofrem permanentemente com o espectro da descida de divisão e dependência financeira.

Os clubes do Nordeste historicamente são doadores de talentos a preço de Banana, pois não se estruturam ou concedem condições para que jogadores de alta qualidade se mantenham, pois ainda patinam em fracas administrações financeiras, pouca transparência dentre outros fatores que contribuem para que isso continue.

Para brigar contra os interesses das emissoras que detém os direitos de transmissão, resta mostrar que a audiência é satisfatória quando se transmite jogos dos nossos clubes, e tentar impedir que se mostrem jogos de times que nada tem a ver com a região passando a rodo. Claro que a dificuldade se encontra por causa do histórico colonizador nos interiores com a presença das rádios e TV que mostram ao nordestino um panorama fantasioso de clubes do eixo Sul/Sudeste para pessoas que hoje torcem por equipes desses estados e que jamais poderão ver seu clube de coração senão por uma tela ou ouvindo pelo radio, jamais no estádio.

Contudo, é mais que hora de procurar outros caminhos para tentar estancar essa disparidade, talvez se os dirigentes souberem aproveitar o potencial que os times de seus estados, cativar seus torcedores locais de um jeito que se possa ambicionar maiores voos. É importante povoar as Séries A e B com clubes do Nordeste, principalmente a Série A, para que seja possível se pensar em título ou Libertadores, coisa que por enquanto soa distante e improvável.

Diego Campos, torcedor do Bahia e colaborador do Futebol Bahiano.

 

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2 Comentário

  1. Diego Campos você fez uma leitura espetacular sobre a realidade atual do futebol nordestino, não é uma questão de vitimismo, não devemos fechar os olhos e achar que são casos esporádicos e isolados. Esse apartheid dentro do futebol é antigo e só os acéfalos não conseguem entender, acompanho futebol a quase 50 anos, sou torcedor raiz que sempre frequentou e frequenta estádios não só na Bahia como em outros estados e sempre fomos explorados e prejudicados por esse sistema.

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