Despenca a popularidade do atacante Neymar após a Copa do Mundo

De acordo pesquisa divulgada nesta terça-feira pelo Ibope Repucom a popularidade de Neymar sofreu um forte abalo na Copa do Mundo. O dados apontam que atacante brasileiro foi citado em mais de 25 milhões de postagens nas redes sociais, no entanto, a maioria continha conteúdo, no conteúdo de teor negativo.

O estudo analisou publicações entre 1º de junho, duas semanas antes da abertura da Copa da Rússia, e 18 de julho, três dias após a final. Na véspera da estreia do Brasil, diante da Suíça. Ainda segundo a pesquisa, após a derrota do Brasil para a Bélgica pelo placar de 2 x 1 em cada 100 comentários sobre Neymar nas redes sociais apenas um era positivo.

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Por José Colagrossi, diretor do IBOPE Repucom

Todos os meninos que jogavam futebol até os anos 90 tinham os mesmos sonhos: chegar a um clube grande, ganhar dinheiro, jogar na seleção, ser conhecido e virar uma celebridade. Até a virada do século, antes do nosso mundo se tornar digital, apenas os verdadeiros craques conseguiam realizar todos esses sonhos. Para alcançar esse patamar, o jogador deveria ser, antes de mais nada, o melhor em campo. Se não era o melhor, não era celebridade, não chegava a seleção e muito menos ficava rico, até porque as cifras envolvidas em negociações daquela época eram bem menores das praticadas atualmente.

A expansão digital da década de 2000, o nascimento da indústria global de celebridades e a explosão das mídias sociais criaram uma sociedade compartilhada onde xeretar a vida dos outros virou obsessão. E não falta quem compartilhe todos os aspectos de suas vidas, inclusive os mais íntimos, em troca de fama e, muitas vezes, fortuna. Este novo ecossistema digital permite que qualquer pessoa com habilidade para a autopromoção possa se tornar uma “celebridade digital”, muitas vezes do dia para a noite.

O status de celebridade digital também chegou ao futebol. David Beckham se tornou o primeiro “jogador celebridade” e o interesse pelo que ele fazia fora do campo logo ultrapassou o esporte. Ser bonito, charmoso, elegante e casado com outra celebridade se tornaram atributos tão importantes quanto seu talento em campo. Rapidamente, jogadores de futebol começaram a ser avaliados não mais apenas pela sua atuação, mas também pela vida pessoal. Isso gerou uma profunda mudança de cenário e, principalmente, de valores no futebol. Afinal, muitos se lembram de que no século passado, a vida pessoal dos jogadores não era de interesse público. Poucos sabiam se o Pelé era casado ou quem era a esposa do Zico. Até mesmo os mais polêmicos ainda usufruíam de certa blindagem pelo baixo poder de compartilhamento das mídias analógicas.



O Brasil, assim como muitos outros mercados ao redor do mundo, é obcecado por celebridades. Basta observar a quantidade de programas de TV dedicados ao tema, de sites na internet e de perfis nas redes sociais. Na medida que a indústria de celebridades se “auto alimenta”, a mídia especializada chega até a fabricar jogadores-celebridades que, mesmo não sendo os melhores em campo, tem os atributos pessoais e comportamentais para se tornarem “celebridades”.

A elevação do status dos jogadores de futebol ao status de celebridade teve duas consequências para o esporte, uma positiva e outra negativa. Se por um lado a glorificação dos jogadores aumentou o interesse pelo futebol, por outro permitiu que o status de celebridade fosse atingido por atributos extracampo. Ou seja, não é necessário ser o craque do time para ser famoso.

Infelizmente, esse cenário mexe com a cabeça do jogador. Na última década, a frente de pesquisas esportivas, tive a oportunidade de conversar com dirigentes de escolinhas de futebol de diversos clubes e todos dizem o mesmo: “esses garotos estão obcecados pela exposição nas redes sociais”. A selfie virou quase uma religião. O verdadeiro problema é que existe um conflito entre os valores coletivos tradicionais do futebol e os valores individualistas deste novo mundo digital. Existe um surto de vaidade e o futebol precisa aprender a lidar com isso. O trabalho dos profissionais de futebol hoje é, entre as demais atribuições, gerenciar ego e a vaidade dos jogadores. Afinal, estamos vendo a primeira geração de jovens puramente digitais, nascidos, formados e imersos no alcance e na agilidade sem fim das redes.

Os impactos do mundo digital no futebol são inúmeros e vão desde a parte técnica ao patrocínio. Ao contrário do mundo analógico, este novo ecossistema digital é veloz, imprevisível e impiedoso. O caso Neymar durante a Copa do Mundo, por exemplo, expõe oportunidades de aprendizados para todo o mercado.

Como a maioria dos atletas de sua geração, Neymar é adepto das mídias sociais. Por se tratar de um dos melhores jogadores do todos os tempos, seu tamanho digital é imenso, comparável apenas aos gigantes do esporte como Messi e Cristiano Ronaldo. Some a essa megaexposição digital o fato de que Neymar gosta de atrair atenção e o faz de diversas maneiras. Na estreia do Brasil na Copa, por exemplo, o cabelo de Neymar foi o assunto do momento, com matérias até sobre os cabeleireiros que o acompanham na Rússia. “Como o Neymar usa o cabelo é problema dele”, dizem muitos. Mas em um esporte coletivo, em que a química do time é condição fundamental à vitória, o excesso de atenção num único jogador, por melhor que ele seja, certamente não ajuda na composição de sinergia e espírito de equipe entre o grupo.

Como amplamente divulgado e debatido na mídia durante e depois da Copa do Mundo, memes sobre o “cai-cai” de Neymar, combinados com críticas de teor fortemente negativo, tomaram conta das redes sociais. O que aconteceu no ecossistema Neymar pós Copa foi uma “tempestade perfeita”.



O Efeito Seleção: Havia uma expectativa gigante pelo sucesso da seleção. Tite assumiu o comando de uma seleção recém-eliminada na Copa América de 2016 e que amargava o sexto lugar nas eliminatórias para a Copa de 2018. Seu trabalho não apenas resgatou a credibilidade da seleção brasileira como restabeleceu a confiança e o orgulho do brasileiro. Os resultados eram incontestáveis e com uma campanha quase perfeita, o Brasil foi um dos primeiros países a conquistar vaga para o mundial, e tanto a imprensa quanto a população se permitiam sonhar, cada vez mais, com o hexacampeonato. Seria o “troco” perfeito ao 7×1. A restituição da moral do nosso futebol. A volta por cima! Entretanto, o hexa não veio e, no lugar, amargamos frustração e decepção. E Neymar, líder máximo do time, carregou uma grande dose de responsabilidade pelo fracasso.

O Efeito Neymar: A superexposição na mídia gera expectativas proporcionais. Quando a exposição da vida pessoal é promovida de forma intensa, como no caso de Neymar, as expectativas tendem a crescer também. Muita exposição pessoal demanda muita entrega no campo. Inevitavelmente, por tratar-se de um atleta de alto rendimento e uma das referências de sua geração, todos esperavam que ele se tornasse o melhor atleta do campeonato, marcando muitos gols e, consequentemente, conquistando o título mundial. Infelizmente, nada disso aconteceu. De forma geral, as pessoas esperam muito de quem se expõe excessivamente e quando não se entrega resultados que atendem à essa expectativa, a ressaca digital é impiedosa. E a Copa do Mundo foi “a hora da entrega”. O momento de corresponder a enorme expectativa criada no maior e mais assistido torneio de futebol do planeta. Neymar foi, segundo o próprio Twitter, o jogador mais comentado de todo o campeonato.

Segundo levantamento global da Kantar Sports, representada pelo IBOPE Repucom no Brasil, desde o pré-copa (01/06) até a última semana (18/07), Neymar foi assunto em mais de 25 milhões de posts nas mídias sociais, considerando Facebook, Twitter, Instagram e YouTube. Mais do que Messi (20 milhões de comentários) e Cristiano Ronaldo (17 milhões), sendo a maioria destes com conteúdo negativo.

Se compararmos o teor dos comentários sobre o atleta na véspera da estreia da seleção com a repercussão da eliminação, Neymar chegou a dobrar a proporção dos comentários negativos a seu respeito. Vale reforçar que, em média, mais de 90% deste volume total de comentários negativos são piadas e memes e foram classificados como negativos pela possibilidade de impacto em sua imagem devido à sua conduta em campo (tema discutido em todos os países analisados) e não por sua qualidade técnica.

 

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