Entrevista: Carpegiani fala sobre o Vitória

Confira entrevista do técnico Paulo César Carpegiani, concedida ao repórter Ângelo Paz e veiculada no Jornal Correio, neste feriado de 2 de Julho, nela, o treinador abre o jogo e conta quase tudo da sua vida.

O bom início do Vitória na Série B te surpreende?

A equipe sempre vai ter um progresso, sempre haverá algo a corrigir. Tenho um grande defeito: sou muito perfeccionista e por melhor que esteja sempre vou cobrar dos meus jogadores. Não há um limite. Hoje estamos num estágio regular. Você tem fama de inventar demais. Concorda?
Tenho procurado manter o time. Tem jogadores que lesionam, que nem atuaram ainda… Quando cheguei, tava jogando com Gabriel de lateral e demorei vários jogos pra mexer. Com o passar do tempo a gente vai mexendo. Isso às vezes não agrada a expectativa de um ou de outro que tenha uma preferência. Vou escalar o que acho ideal.Você jogou improvisado alguma vez a pedido de treinador? Sim. O jogador versátil tem que ter uma preferência. O que faço é dentro das possibilidades. Eu não coloco Neto de lateral, zagueiro… Um Pedro Ken pode jogar como segundo homem, tem qualidade. O que você não pode fazer no futebol é contrariar características. Joguei uma Copa do Mundo de volante ao lado de Rivellino em 74. Zagalo me perguntou: ‘quer jogar?’ Eu disse que queria. Eu tinha característica pra jogar ali. Por falar em laterais, tem sido seu maior problema? Já jogaram dois pela esquerda e três pela direita em oito rodadas. Tenho preferência com os laterais desde que cumpram a função. Lateral: função é marcar. De posse de bola, com segurança, vai jogar. Temos vários laterais alas e isso tem nos complicado na formação da equipe. Realmente é a nossa maior dificuldade. Em 2009, você considerava Leandro Domingues o jogador diferenciado do time. Hoje, tem esse jogador no Vitória? Temos Eduardo Ramos, que é o típico camisa 10, que pode nos ajudar muito nessa campanha. Mas você ainda não tem o time organizado. Eu preciso ter gente agressiva pro Eduardo jogar. Preciso de um ou mais outro cara agudo, um Xuxa, Arthur Maia, pra que Eduardo tenha condições de fazer ele chegar na cara do gol. Tudo isso está no caminho e aí sim Eduardo poderá produzir e aparecer mais. O que acha do jeito polêmico de Neto Baiano? Acho saudável, o futebol também vive disso. Na seleção paraguaia tive um goleiro muito parecido, que era o Chilavert. São jogadores que chamam a responsabilidade, tem personalidade pra chamar atenção. Isso é uma forte personalidade, sabia? Você assumir, comprar briga… E essa ida para a seleção do Paraguai, o que tem de fato? Não sei te dizer, não sou eu que decido. Eu fui procurado numa certa instância. Tinha vários convites da A, optei pelo Vitória porque teria a possibilidade de ter a permissão. Seria pra treinador. Houve a possibilidade porque são jogos esporádicos, se faz dois ou três jogos. Mas tenho um preço e não recuo, talvez seja demasia. Prefiro falar caso haja o convite oficial. Na chegada, disse que Salvador te cativava muito. Por quê? Primeiro, o povo. Um povo acolhedor, humilde. Não tem melhor nem pior, apesar de ser bairrista também, né? (risos) É bairrista como nós gaúchos. Achamos que nossas coisas são melhores do que as outras. Aqui tu diz qualquer defeito e dizem: ‘por que tu veio? Vai-te embora’. É um povo que te estima. Quando estou em férias, venho com meu motor home (trailer) passar em Salvador. Como surgiu esse hobby? É um hobby que eu e minha esposa temos. Se um não tiver, dá separação. Como gosto de dirigir, é uma casa ambulante. Uma casa de boneco, como a gente diz. E tem tudo à disposição para viajar pelo Brasil afora, Argentina, Chile, Uruguai… Então viajamos quando não tô trabalhando muito seguido. Modestamente, trabalho onde eu quero. Há muitos treinadores gaúchos em evidência. Mano Menezes, Felipão, Tite. Em que o futebol gaúcho influencia nisso? É uma casualidade. Sou oriundo do futebol ganhador. Tenho todos os títulos possíveis da história. Campeão do mundo, numa mão você não conta. Vivo, você não enche uma mão. Que técnico mais te marcou? Sou grato aos técnicos que me deram oportunidade. Modestamente, pela própria exigência técnica minha, era uma obrigação me dar, abrir o caminho. Teve o Dino Sani, Rubens Minelli, que me deram oportunidade de eu me tornar um grande jogador. Esqueci Falcão, seu colega das antigas. Já encontrou ele aqui? Não encontrei, só nos falamos uma vez por telefone. O Paulo estava até num restaurante. Talvez alguns dias a mais a gente tenha possibilidade de se ver. É um grande amigo. Formamos um meio-campo razoável no Internacional, marcamos uma época. Me dou demais com ele. Ele sempre quis ser treinador. Como você analisa o atual momento do futebol brasileiro? Venho a cobrar no futebol brasileiro. Sei que é uma dificuldade imensa em qualquer estado porque o jogador brasileiro é totalmente desleixado na parte tática. Diferente do jogador europeu, onde há uma disciplina. Achamos e queremos ter possibilidade de decidir o jogo na hora que quisermos. Futebol não é assim. Procuro no Brasil uma equipe que posso dizer que é organizada e não conto uma. E a Seleção Brasileira? Com Neymar de astro, Lucas, seu jogador na época do São Paulo… A grande dificuldade que vejo é o tempo de preparação, apesar de o Brasil ter muito mais tempo pelo fato de ser o anfitrião e já estar classificado. Está com a mesma dificuldade de formação das seleções que estão nas eliminatórias. Muitos de vocês, imprensa, e alguns de nós treinadores firmamos bases do tipo: esse é o principal jogador, é o cabeça da Seleção… Com esse pensamento não chegaremos a lugar nenhum. O Barcelona, referência de futebol coletivo, seria o exemplo? O Barcelona teve o grande mérito de ter uma ideia e colocar em prática com a característica de jogadores que tinha à disposição. Uma equipe altamente agressiva, ofensiva, que joga sufocando, mas acima de tudo com técnica, toque de bola e habilidade. É muito difícil ter todos esses jogadores à tua disposição num determinado momento. Ele conseguiu fazer isso de cara e depois foi lapidando. E passou um longo tempo como time ganhador. Mas primeiro você tem que ter os jogadores dessa qualidade e disciplina. É um time pra mudar o perfil do atual futebol mundial? Futebol é imposição de uma maneira de jogar sobre a outra. Muitas vezes o Barcelona impõe o ritmo, mas em momentos importantes perdeu jogos e vai perder. Você pode perder qualquer jogo, mas prefiro perder como o Barcelona. Por isso marca história. Que time encheu seus olhos? Joguei contra a seleção da Holanda (de 1974). Aquilo era pressing (marcação por pressão). Se o Barcelona faz pressing, a Holanda você não conseguia olhar pro lado, cara! Eram quatro, cinco pressing. A seleção da Holanda foi a que mais me impressionou. Tava lendo uma reportagem do grande jogador holandês (Cruyff), ele dizia que tinha cinco, seis jogadores extraclasse, inteligentíssimos, com um QI elevadíssimo. E pra você formar uma grande equipe, você tem que ter uma quantidade boa de QI, que desempenhe, organize o time dentro de campo. A Holanda tinha tudo isso, além da grande qualidade. No Brasil, a maioria dos jogadores não tem boa escolaridade. Talvez por isso temos mais talento do que organização? Não tem como brecar isso. Todos nós somos humildes. E tem pessoas que vem de uma classe mais baixa ainda e é ali que está o talento, o grande jogador. Todos nós nascemos com o mesmo kit. Deus não disse: você vai ser jogador, você vai ser outra coisa. O garoto de pé no chão joga muito mais futebol, o outro que nasce numa família mais de elite talvez não gosta da bola. O ideal era que todos tivessem o Qi, mas não têm. Mas outra coisa pesa bastante. São vocês que fazem o grande ídolo, nós que passamos a mão na cabeça, o diretor que conduz. Se tem um menino muito bom, não se pode exigir muito, ele passa a ser a grande esperança do clube. Isso faz com que o garoto tenha tudo. Aí entra no costume, por isso somos mal acostumados. E gera esse tipo de falsa idolatria. Acha fundamental a ida dos nossos jogadores pra Europa? Lá eles aprendem. Lá eles são exigidos como profissionais e aprendem a ser estritamente profissionais, coisa que não somos no futebol brasileiro. No Vitória, você tirou Douglas e Rodrigo por estarem acima do peso. Isso gera chateação. Falta consciência aos jogadores? Isso é um exemplo. Gostaria de ter no meio do ano jogadores que estão fazendo uma alimentação melhor, pra que entrem no peso e não tenham dificuldade, não se machuquem com facilidade. Essas exceções são um exemplo típico do que é nosso profissionalismo. Aqui se passa a mão na cabeça, deixa jogar como está e isso acaba acarretando problema pro time e pra ele. E quais suas maiores lembranças como jogador? Não tenho grandes lembranças, eu tenho grandes momentos. Como jogador nunca perdi um título regional. Sempre fui campeão. Só joguei em duas equipes, Internacional e Flamengo. Depois, como treinador, coroei o máximo que eu acho num treinador, que é estar numa Copa do Mundo, uma valorização maior do que qualquer título, até maior que campeão do mundo (foi com o Flamengo, em 1981). Ali é um grupo seleto de pessoas, de equipes, de treinadores. É fantástico.

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