Jony Torres: Troca-troca

O sujeito entrou no táxi e se surpreendeu com o interior do carro cheio de penduricalhos nas cores vermelha e preta. Escondeu o sorriso sarcástico entre os lábios, guardou o orgulho tricolor no fundo da alma e resolveu tirar um sarro. “Que sofrimento este nosso Vitória, hein?”, disse enquanto se ajeitava no banco de trás.

O coitado do taxista que naquela manhã de segunda ainda não havia parado em nenhum dos seus habituais pontos para fugir das gozações, se sentiu aliviado ao acreditar que encontrara um parceiro de sofrimento, e desabafou. “Ô meu velho, nem fale. Tô aqui virado no estopô, retado com o nosso time.

Desculpe o jeito, mas mesmo com a vitória de ontem, tá difícil escapar. Parece que vamos fazer troca-troca com o Bahia, um vai pra cima e outro para baixo”, disse procurando no retrovisor o olhar de concordância do passageiro. O tricolor sacana achou meio esquisita aquela conversa de troca-troca, mas nem deu bola e resolveu malhar ainda mais o sofrido rubro-negro. “Ainda falta muito, nove partidas, talvez a gente se salve. Mas quando me lembro do rebaixamento de 2004, perco as esperanças”, cutucou.

Apertando ainda mais o volante, o condutor sentiu o golpe, como uma faca a lhe atravessar o fígado trazendo a lembrança daquela derrota para a Ponte Preta, que rebaixou o Vitória no Barradão. “Era só ganhar da Ponte que a gente se salvava”, lamentou. O atentado do torcedor do Bahia foi ainda mais fundo. “Ah, então me atrapalhei nas datas, tava falando de quando caímos para a terceira, em 2005, não foi?”, disparou quase sem conseguir esconder o riso. Essa foi demais. O taxista sentiu o ar faltar e ficou mudo até chegar ao fim daquela corrida que lhe rendeu R$22 e muito aborrecimento.

Lembrando da história do troca-troca, o Bahêa ao contar o troco decidiu ver o rubro-negro enfartar de uma vez, usando-o para se vingar de quase uma década de gozações. “E o pior, é que neste troca-troca, só dá para mudar de posição mesmo. Nem uma estrela a gente tem para tirar onda”, disse enquanto batia a porta.

Saiu sorrindo, sem olhar para trás. Não viu o rubro-negro baixar, arregalar os olhos, encostar a cabeça no volante e colocar a mão sobre o peito esquerdo. Antes de dar aquele que parecia ser seu último suspiro, o taxista ainda pôde sentir o vazio do lado esquerdo do peito. Sem estrelas, sem esperanças, pensou que ia morrer de desgosto ali mesmo.

Estava imóvel, cabeça baixa e de olhos fechados, quando ouviu a pergunta. “Tá livre?”. Quando já responder que sim, o taxista olhou para a janela, deu um grito e arrancou desesperado. “Não, sai pra lá sua desgraça!”. Vestido com a camisa do Bahia, o homem tomou o susto ao ver o táxi partir. Olhou para os lados, ergueu os ombros e suspirou. “Eu hein. Só tem louco”. Coluna do Jony do Correio de hoje/a imagem é do BBMP

Figueirense X Bahia ao Vivo – 19/10/2010

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