Tragédia cai no esquecimento

Na matéria de hoje pela manhã do portal UOL, a tragédia da Fonte Nova emerge como uma porrada na cara de dirigentes baianos. Mais uma vez preocupados com os negócios de seus clubes, esquecem a Fonte Nova, como fizeram outras vezes deixando-a a míngua. A denúncia da matéria e a “grande” novidade é a falta de assistência aos familiares das vítimas da tragédia da Fonte. Exemplos de descaso de como o dinheiro consegue manipular consciências e esquecer o que realmente é importante quando estão em jogo vidas humanas. Os dois anos da tragédia da Fonte é um sinal para os idealizadores da “lusoarena” repensarem seus reais motivos para tamanha bravata com ar de joguinho político. Sim, meus caros, temos uma verdadeira baixaria política com o intento de paralisar o governo na reconstrução da Fonte Nova. Uma verdadeira chantagem com o povo baiano.

No dia 25 de novembro de 2007, parte do piso da arquibancada no anel superior da Fonte Nova desabou e 11 torcedores foram tragados para uma queda de 15 metros de altura, o equivalente a cinco andares de um edifício. Sete morreram: Djalma Lima Santos, Jadson Silva, Joselito Lima Júnior, Márcia Santos Cruz, Milena Vazques e Midiã dos Santos. Dois anos depois, a cratera foi tapada com uma placa de alumínio e a pior tragédia do futebol brasileiro caiu no esquecimento.

“É lógico que esqueceram. Se não tivessem esquecido estariam em dia com o que foi prometido”, diz Janilce da Silva Teixeira Lima, 62, mãe de Joselito Lima Júnior, que morreu junto com o primo Jadson Silva. Ambos eram filhos únicos e o trauma foi tamanho que a família de Jadson sequer deu entrada no pedido à pensão vitalícia oferecida pelo Governo do Estado aos familiares e calculado com base no salário que a vítima percebia na época do acidente.

Pensão que, no caso de Janilce, tem o valor de R$ 492 congelado há dois anos pela Secretaria de Adminitração do Estado da Bahia (Saeb). “O governador deu a sua palavra de que haveria reajuste anual, e se prometeu tem que cumprir. Eles dizem que o problema é a burocracia, mas essa burocracia só existe para os pequenos”.

Procurada pela reportagem do UOL, a Saeb diz que o assunto é de alçada da Secretaria do Trabalho, Renda, Emprego e Esportes (Setre), cuja assessoria de comunicação não soube informar sobre nenhum reajuste previsto para a pensão.

“A gente não pode fazer nada. As pessoas que partiram eram pobres, diz, resignado, Elias de Souza, que não reclama da pensão de R$ 500 mensais e sim do fato de ainda não ter recebido os R$ 25 mil do seguro obrigatório feito pela CBF. Tudo porque Midiã deixou uma filha, Karen, de 7 anos, criada pelos avô desde o acidente. “A guarda definitiva da Karen depende de um alvará judicial que até agora não saiu. E enquanto não sair a guarda definitiva a seguradora não paga a indenização”, explica.

Elias ainda procura motivos para comemorar o aniversário de 62 anos, completados nesta terça-feira, 24. A camisa do Bahia, presente de um primo recebida na véspera da tragédia que matou sua filha, permanece guardada no armário. Para o pai de Midiã, a paixão que ele se orgulhava de ter transmitido aos filhos pelo futebol é fonte de desgosto. Uma sensação que se estende aos familiares de outras vítimas e ganha ares de revolta quando o assunto passa a ser a Copa do Mundo de 2014.

“A vida que eles levaram não tem como substituir. Só estão olhando o lado financeiro. Cheguei a ter raiva, assistindo pela TV”, reclama Fábio dos Santos Marques, irmão mais velho de Anísio Marques. “Infelizmente só estão pensando nisso, mas se não tiver jogo da Copa aqui pra mim é melhor”, desabafa Janilce.

Entre os sobreviventes, Jader Landerson, de 21 anos, fez um enxerto na coxa direita para repor parte da musculatura perdida na queda. Patrícia Vasques Palmeira quebrou a bacia e uma perna e faz fisioterapia para recuperar os movimentos. Ela perdeu a irmã, Milena, 27. Assim como ela, sua mãe, Raimunda Vasques, se recusa a falar sobre o assunto. “Fico com a minha dor para sempre”. O silêncio contribui para o esquecimento.

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