Quando a paixão bloqueia a razão

A idéia do esporte como instrumento de pacificação e de aproximação das pessoas está comprometida entre nós. O episódio protagonizado pelo zagueiro André Luís, do Botafogo, faz o futebol parecer uma competição em que a truculência é parte dos lances e, pior, cria muros, regionaliza a paixão e torna mais profundo o poço que parece separar os brasileiros, quando se trata de saber quem tem a hegemonia.
O Sudeste se arroga a supremacia sobre o Nordeste e isso não é nenhuma novidade. Vez por outra chega a assumir ares de separatismo, pura e simplesmente, porque se consideram superiores ao atrasado Nordeste, apenas uma carga pesada.

Quando tamanha ignorância da história de nosso País e tanto descaso para com o significado aglutinador e pacificador dos esportes são jogados no lixo por formadores de opinião – como é o caso de parte da grande imprensa do Sudeste – aí a questão assume uma gravidade ainda maior. Porque se eles têm a hegemonia política e econômica podem utilizá-la para tudo mais, como estão fazendo agora, mesmo quando é tão evidente que nós – o Náutico, a Polícia Militar, a torcida pernambucana – é que fomos agredidos por uma atitude brutal e intolerável de um jogador de futebol.

Os fatos são de tamanha clareza, documentados pelas imagens de TV, ao vivo ou gravadas, que espanta a parcialidade de boa parte da grande imprensa do Sudeste. Uma parcialidade que vai além das preferências clubísticas e agride os mais elementares princípios do bom jornalismo. Como se eles, e apenas eles, fossem donos da verdade, até mesmo quando manipulam os fatos.

Assim, vejamos: Quem foi expulso por jogada violenta? Quem reclamou do árbitro? Quem chutou uma garrafa que atingiu um torcedor e deu um murro na coberta do banco de reservas? Quem, convidado a sair de campo, agrediu com palavras e gestos uma policial?
Sabem os intérpretes futebolísticos do Sudeste que o personagem de todas essas atitudes grosseiras, fartamente documentadas, foi o zagueiro André Luís? Aparentemente, sabem, mas, para não deixar cair a bola e manter a superioridade regional, jogam toda culpa na Polícia Militar.
Quem acompanha o futebol em qualquer parte do mundo sabe que, lamentavelmente, o que deveriam ser competições saudáveis mais e mais se transformam em confrontos, como aconteceu com o Sport Club do Recife, discriminado e agredido no Rio de Janeiro pela torcida vascaína, naturalmente sem a repercussão apaixonada, como agora, dos intérpretes do futebol brasileiro na ótica do Sudeste.
A presença da força policial em campo, como eles devem saber, serve para prevenir, conter paixões, impedir violência e restaurar as condições de competitividade em torno da bola. No caso do incidente no campo do Náutico, a polícia agiu com firmeza, sim, porque qualquer ação policial para impedir tumultos terá que ser com firmeza. E foi o que vimos e continua a ser mostrado em gravações de TV. Uma policial foi tratada com desrespeito quando tentava restabelecer as condições do jogo. A decorrência natural foi a voz de prisão, porque se assim não tivesse sido poderíamos, aí sim, instalar as condições de bagunça, pela omissão, generalizando a violência iniciada pelo zagueiro truculento.

Agora, vêm insinuar que o Náutico poderá ser punido por isso e é curioso ver que os artigos elencados como “culpa” depõem, ao contrário, a favor do clube. Se tinha que garantir a segurança, foi exatamente o que fez, assim como foram tomadas as providências para reprimir e prevenir desordens. Mas é o que vem sendo apresentado pelos separatistas como truculência da Polícia Militar.

É desejável que não se transforme esse episódio em mais um componente nessa tentativa de apresentar um Brasil dividido entre regiões mais desenvolvidas e menos desenvolvidas, até nos esportes. Esse é o maior de todos os atrasos e não pode ser alimentado a partir de uma atitude impensada de um jogador de futebol que no calor de uma disputa é levado ao excesso que turva e compromete a razão. – Este artigo é o editorial do Jornal Pernambucano JC online, que retrata além da perfeição os acontecimentos em Recife no último domingo.

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