Fonte Nova seis meses depois

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Jader viu e ouviu tudo. Viu o momento exato em que o primeiro paramédico da Samu aproximou-se e parecia ter medo de tocar os corpos que estavam no chão. Ouviu os gemidos assustadores dos que não resistiram e sofreram insuportavelmente os seus últimos espasmos de vida. Viu restos de concreto armado e vigas de ferro caírem sobre as vítimas minutos depois de o piso ceder. Ouviu as lamúrias dos parentes que choravam sobre os seus mortos. Jader não fechou os olhos um só instante. Hoje faz seis meses que o chão da Fonte Nova abriu sob os seus pés. Durante o vôo de 15m arquibancada abaixo, foi o único que permaneceu consciente durante todo o tempo.

Uma complicada cirurgia plástica, quatro meses de cadeira de rodas e um sem-número de sessões de fisioterapia depois, Jader está novamente de pé. Além dele, Patrícia Vasquez Palmeira e Germano Andrade conseguiram o milagre de sobreviver à queda. Corajoso, Jader aceitou o desafio de voltar ao local em que viveu os momentos mais estranhos e aterrorizantes de sua vida. Os passos são lentos, perna ante perna. Enquanto salta do carro e vai em direção ao lugar exato de onde despencou, lembra com detalhes do que viu e ouviu naquela noite.

Era apenas a sua terceira ou quarta experiência num estádio de futebol e Jader viu o atacante do Bahia, não lembra se o artilheiro Nonato, desperdiçar uma chance preciosa para abrir a contagem. Nesse momento, num movimento de torcedor ansioso pelo gol, levantou-se. Foi aí que o buraco se abriu. Seis meses se passaram e ele ainda se lembra de, já no chão, ter chamado várias vezes o amigo Joselito. Em vão. Josa e outro companheiro, o Jadson, morreram ali mesmo. A foto do primeiro, com quem tinha mais afeição, imprimiu numa camiseta com a seguinte homenagem: “Saudades eternas do amigo Joselito”.

Enquanto aponta para os grampos de ferro que lhe arrancaram um terço da coxa direita, Jader remonta uma cena angustiante. Instantes após a queda, olhou para cima e viu Milena Palmeira, irmã de Patrícia, suspensa no ar, pendurada pelas pontas dos dedos no resto de cimento da arquibancada. Teria resistido por uns 20 segundos até que não suportou o peso do próprio corpo. Caiu ao lado de Jader. Ao vê-la debatendo-se, foi aconselhado por um médico de uma das equipes de salvamento. “Não veja essa cena. Vire-se para cá”. Minutos depois, Milena morreu.

Além do profundo ferimento na coxa, que lhe rendeu a cirurgia, Jader, hoje com 19 anos, também sofreu luxações na coluna e diversas escoriações pelo corpo. Ficou quatro meses sem poder andar. Ainda hoje está em tratamento médico rigoroso. Freqüenta a fisioterapia três vezes por semana, tem consultas mensais com cirurgiões plásticos e ortopedistas e faz exames periódicos no hospital. Usa um colete para manter a coluna ereta e veste uma calça de tecido especial para ajudar no assentamento da pele enxertada na perna.

O pai de Jadson, Gerson Santos Azevedo, garante que todos os custos têm sido pagos pela Superintendência de Desportos da Bahia (Sudesb). Quase que semanalmente diz receber ligações do presidente do órgão, Raimundo Nonato, o Bobô. “Ele sempre procura saber como vai o tratamento”. Jader não parece guardar qualquer rancor do ex-jogador. “Pelo menos ele liga. Pior são os diretores do Bahia que no início disseram que iam ajudar e até agora nada”, ataca. Os outros sobreviventes da queda e os seus familiares preferiram não falar sobre o assunto.

“Ainda não sabemos quando teremos condições de falar”, resguarda-se o pai de Patrícia Palmeira, João Palmeira. Segundo informações do próprio Jader, que mantém contato com a família, a menina se recupera da quarta cirurgia na bacia. “Parece que a peça de platina que ela colocou não foi aceita pelo organismo”, comentou. Em plena recuperação, Jader prefere encarar os traumas e anda com passos lentos em direção ao ponto em que encontrou o solo. Mesmo tendo visto e ouvido tudo naquela noite, volta a olhar pra cima e vê a abertura. Ouve uma palavra de conforto da tia que o acompanhou no reencontro com a tragédia: “Você nasceu de novo, filho”.

Alexandre Lyrio Três famílias não receberam seguro
Herbem Gramacho

Seis meses após o trágico acidente, três das sete famílias desfalcadas ainda não receberam a indenização do seguro-torcedor a que têm direito, no valor de R$25 mil. São as famílias de Djalma Lima Santos, Midiã Andrade Santos e Anísio Marques Neto. Os motivos variam.

O caso mais complicado é o do autônomo Anísio Marques Neto, que deixou três filhos, cada um de uma mãe diferente. No caso dos dois mais novos, será necessário fazer exame de DNA para comprovar a paternidade, já que os dois meninos não são registrados como filhos dele. Um tem 4 anos, o outro nasceu seis dias antes do pai cair da Fonte Nova. Provada a paternidade, as três crianças têm direito a uma fração do dinheiro, assim como a companheira de Anísio.

Segundo relato de Fábio dos Santos Marques, irmão mais velho de Anísio, os dois filhos mais novos são frutos de “puladas de cerca” do irmão. Fábio conta que Anísio morava com uma mulher de prenome Patrícia, mãe do filho mais velho do casal, de 8 anos. Os três residiam na casa dos pais dela. Nesse caso, Patrícia tem direito a entrar na fatia do montante, desde que apresente uma certidão de união estável.

Só que Patrícia ganhou uma concorrente quando a mãe do filho mais novo de Anísio, de prenome Edileuza, também se apresentou à companhia Excelsior Seguros como companheira dele. E, para enriquecer ainda mais o enredo da história, a mãe do segundo filho alega o mesmo.

Pela Constituição brasileira, não há mais a exigência de cinco anos de convívio para caracterizar uma união estável. O fator tempo foi revogado desde 1996. Baseado nisso, as duas mulheres do relacionamento extraconjugal alegam ter tido uma união estável, embora ainda não tenham apresentado a certidão exigida. Está feita a confusão. “Não depende de mim. Tem três filhos e três mulheres. Se eu pagar errado, vou ter que pagar de novo”, explica Nelson Uzeda, superintendente da Excelsior, empresa responsável pelo pagamento do seguro. As mães das crianças não foram encontradas pela reportagem.

Das outras quatro famílias reduzidas pela tragédia, três não quiseram dar entrevistas. “Eu estou tendo dor de cabeça direto. Não quero falar sobre isso”, diz Jane Lima, mãe de Joselito Lima Júnior, 26, falecido junto com o primo Jadson Celestino, 22. Os dois eram filhos únicos. Já a família de Márcia Santos Cruz, 27, deixou a casa onde morava, no Calafate, e não foi localizada pela reportagem. Márcia era amiga de Djalma e Anísio e estava junto com ele e mais quatro vizinhos na Fonte Nova.

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