Fonte de amores e dores

Trinca de ouro do Bahia viveu seu auge na Fonte Nova. Eles estavam lá quando a arquibancada caiu

“EU QUERO VER BEIJOCA BOLA JOGAR”

Da tribuna, Beijoca não viu nada da tragédia. Tinha a organizada da Bamor pulando na arquibancada do lado de lá. Quando isso acontecia, o chão trepidava, mas era de costume. Como era de costume o Bahia levar 60 mil fanáticos à Fonte Nova, 80 mil, 100 mil, fosse na série A, fosse na série C. O jogo em questão valia classificação para a B, e o missionário Beijoca orava pela ascensão do time. Zero a zero contra o Vila Nova de Goiás era um resultado dos diabos, mas bastava para o esquadrão se firmar com uma rodada de antecedência. Apito final, Beijoca sai carregado pela torcida à volta. Chorou, louvou a Deus e correu para o vestiário encontrar a equipe, da qual é uma espécie de consultor. Meia hora depois soube que torcedores haviam despencado de uma altura de 15 metros por uma enorme fenda na arquibancada, perto de onde ele deixara a mulher e os dois filhos vendo o jogo. Suou frio. O celular não pegava. Irmãos em Cristo saíram à procura da família dele, até que Dnair, Victor Lázaro e Maria Marta apareceram no vestiário.

Nem se pode dizer que estavam seguros ali porque tem rachadura no vestiário da Fonte Nova que comporta a mão inteira de Beijoca. E a mão de Beijoca certamente dá duas da tua. São falanges gordas, o polegar esquerdo retorcido e uma potência que tirou sangue de muito atleta com quem saiu no soco durante as partidas que disputou pelo Bahia, pelo Fortaleza, pelo Flamengo. “Costumo dizer que o torcedor, naquela época, devia pagar dois ingressos: um para ver meus gols, outro para ver minhas brigas.” Só no Bahia foram 220 partidas, 106 tentos e uma pancadaria dentro e fora de campo que, no limite, tirou a visão de um e deixou outro aleijado.

“Só fazia isso pela ânsia de ganhar”, confessa. Ânsia que sua conversão tenta controlar, mesmo quando ele bate um baba máster (babas são as peladas da Bahia). Com 53 anos, Beijoca luta para recuperar o patrimônio perdido em bebedeiras, puteiros e drogas. Nos testemunhos pela Igreja Batista Independente, revela que mais de uma vez jogou dopado por Pervetin, ficou sem dinheiro para um pão e passou a ser evitado por amigos para quem, no auge, chegou a fechar o andar de um hotel de Salvador, com uma mulher em cada quarto.

Em tom saudosista, embora não se reconheça como tal, dá testemunho de um episódio na Fonte Nova: Ba-Vi de 1976, campeonato disputado em três turnos. O Vitória tinha vencido dois jogos, estavam no terceiro. O Vitória ganhava de 1 a 0, tinha um homem a mais e um pênalti a favor aos 40 minutos. Osni foi bater. Todo o time do Vitória abraçou a grande área, à espera do título. O do Bahia ficou no meio de campo. Osni chutou e o goleiro pegou. “Então, deu um repente no goleiro, ele jogou a bola lá para Douglas, o time saiu rápido e fizemos o gol.” O empate levava à prorrogação. Orlando Fantoni botou Beijoca, de joelho estourado por cirurgia recente e por incontáveis infiltrações, algumas feitas por ele mesmo. Ele não decepciona: aos 5 minutos da prorrogação, vira o placar. Jogaram mais quatro Ba-Vis, o Vitória dependendo apenas de um empate. Bahia ganhou todos os quatro. Beijoca foi artilheiro dessa fase, inclusive com o gol do título.

O cabra marrudo, que nasceu Jorge Aragão e ganhou o apelido por ter a cara rosada da boneca da Estrela, encharca os olhos. De um repente começa a batucar na coxa, cantando o hino que tantas vezes ouviu em coro na Fonte Nova:

“Eu quero ver Beijoca jogando bola, eu quero ver Beijoca bola jogar
Nesse domingo vai ser dia de alegria, a torcida do Bahia onde ninguém grita só
Beijoca chega, pega a bola e vai driblando e a galera vai gritando ‘olha a negra do filó’.
Quando ele chega de azul, vermelho e branco, representa a esperança da torcida tricolor
E a galera toda treme nessa hora, Beijoca pegou na bola, com certeza vai ser gol

Eu quero ver…”

“FUI UM HERÓI MORTO”

Um som oco. Foi o que Thyrso pensou ter ouvido no domingo passado lá pelos 35 do segundo tempo. Como quando a gente acha que sentiu um terremoto. Depois vai ver era mesmo. Ficou no sufoco, quieto, esperando a Fonte Nova esvaziar. Então começaram a espalhar: “Morreram 8, morreram dez”. Lembrou de 1971, quando o estádio ganhou o anel superior. Cerca de 90 mil ingressos foram vendidos para a (re)inauguração, mas o povo estava com um medo enrustido daquela enormidade. O estouro de uma lâmpada virou um estouro de boiada. Diante do presidente Médici, o tumulto deixou pelo menos dois mortos e 2 mil feridos, nas contas mais animadoras.

De 68 a 83, Thyrso Maltez Frost Rego, filho de um inglês com uma baiana, cara azoado, uma flecha, deixou suas pegadas na ponta direita da Fonte Nova. Flamengo foi doido para levá-lo embora, Vasco chorava por ele. “Mas o Bahia tirava o suor da gente e não vendia.” Thyrso não bebia, só saía pra gandaia. E dava porrada no adversário, muitas vezes já na saída do túnel. Antes do primeiro pique, fingia amarrar a chuteira para cheirar o cangote do zagueiro. Se vinha catinga de remédio, sabia que ia correr por dois para vencer aquela energia toda. “Muito jogador se dopava, tomava Gluoenergan, inclusive do nosso time; eu ficava lá fornecendo urina pro exame deles.”

Thyrso guarda no baú várias cenas no Estádio Octávio Mangabeira, uma delas pela metade. Num Ba-Vi decisivo, 1 a 1 a poucos segundos do fim, Procópio, do Vitória, atrasou a bola para o goleiro Joel Mendes. Como Thyrso ia em todas, foi naquela também. Só se lembra que meteu a cabeça na pelota e levou um murro do Joel. Acordou amarrado a uma maca de hospital, com um tampão no olho, gritando: “Joga a bola em mim, joga a bola em mim!”. Tinha passado por uma cirurgia para corrigir um desvio no globo ocular. Pior: fez o gol do título, mas não participou da festa. “Fui um herói morto.”

Numa crise de depressão há cerca de sete anos, Thyrso quis encerrar sua carreira na vida. Tomou sete venenos de rato porque seu bar não ia bem das pernas e faltava dinheiro para a faculdade da filha. Teve duas paradas cardíacas, emagreceu 17 quilos, mas saiu dessa. Como saiu de outro enfarte, este espontâneo, em maio do ano passado. Desobstruiu quatro artérias, porém o coração continua entupido de paixão. Pelo Bahia. Foi a todos os jogos da série C na Fonte Nova. O time não perdeu uma em casa. A notícia da iminente demolição do estádio soou-lhe como uma facada no miocárdio.

“É UM TEMPLO HISTÓRICO”

O máximo que Douglas viu no domingo foi a invasão da torcida. Estava na arquibancada e registrou o povo subindo no alambrado – nada que tenha lhe parecido anormal, considerando que a multidão já tinha feito a reforma agrária do gramado em tantas outras decisões. O ex-camisa 8 do Bahia, dos maiores craques do time, foi dali para o trio elétrico. Mal entoou um “Bora Bahêêêa!”, a polícia veio avisar da desgraça. Não tinha sentido continuar a comemoração.

Se você perguntar a este santista adotado pela (e pelo) Bahia alguma cena marcante da Fonte Nova, ele dirá: “Todas”. Inclusive uma de que não participou, mas que é memorável porque fez parte da primeira Taça Brasil, a de 59. O Bahia tinha ganhado de Pelé, Coutinho & cia. na Vila Belmiro, perdeu na Fonte Nova, mas fez 3 a 1 no Maraca. Tudo bem que Pelé não jogou na última partida, mas o Bahia peitou o Santos. Douglas já ciscava por ali, na Vila Belmiro, como mascote. Inesquecível foi dar passe, anos mais tarde, para o Rei. Acontece que quiseram botá-lo reserva de Pelé. “Aí não dava, né? Não ia jogar nunca. Pedi pra sair”.

Foi para o América do Rio treinar no lugar do Edu, irmão do Zico, que tinha se machucado. Nem estreou: o Bahia fez uma boa oferta por ele. Douglas voltou para Santos a fim de estudar o caso. Tinha em mãos a passagem de volta para o Rio caso a história com o Bahia azedasse. Não azedou. Foi é temperada com muito dendê. “Fiquei doijcho com aquela dinheirama”, brinca. Cancelou a ponte aérea e embarcou na mesma data para Salvador. No dia seguinte, viu que o avião que pegaria para o Rio tinha caído, matando 72. “O Bahia salvou minha vida.”

Para agradecer foi ao Bonfim, onde catou uma bandana branca de um repórter. Lançou moda país afora. Era um hippie estiloso, que ficou na equipe de 72 a 79, foi heptacampeão baiano com 333 gols e artilheiro do Brasil em 1978. Encerrou a carreira em Barretos, mas retornou a Salvador. “O baiano protege seus ídolos.” Ocorre que, ainda assim, tem muito ex-jogador na pindaíba. Daí ele estar à frente da Associação de Garantia ao Atleta Profissional tentando reerguer a auto-estima de quem parou.

Na quinta-feira, muitos deles batiam um baba na Associação Atlética Banco do Brasil. Alguns tinham sentido a vibração da Fonte Nova. Douglas, dono da razão, evitava maiores sensibilidades. “É um templo histórico, guarda um monte de coisa boa e, hoje, também coisa ruim.” Pegou o colete amarelo e entrou em campo. Bateu de cá e de lá, a bola grudada no pé. Nunca gostou de goleiro, não seria desta vez. Ignorou o figura e fez um golaço para quem está um tanto acima dos 58 quilos da juventude. O céu estava nublado. Pairava um gosto de nostalgia e tragédia no ar.

Mônica Manir

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