1º ato: Pacificação e aproximação dos diferentes grupos políticos existentes dentro do clube

Já de muito escuto por quatro canto que a ressurreição do Esporte Clube Bahia passa quase que necessariamente pelo casamento indissolúvel entre um novo modelo de gestão e a democratização com a desejada e consequente eleição para a presidência do clube.

O texto dos professores Carlos Campos e Fernando Trein é longo, mas foca de forma bem clara parte deste processo, quando aborda o novo modelo de administração do Internacional de Porto Alegre e do Barcelona. Vale ressaltar, que Fernando Carvalho, do Internacional, tornou-se o primeiro presidente eleito pelos sócios do clube. Mesmo longo, o assunto é pertinente, vale a pena conferir.

A decisão do Mundial de clubes da Fifa em 2006, realizada no Estádio Internacional de Yokohama, no Japão, não opôs apenas Barcelona e o Internacional, que se sagrou campeão. O jogo marcou um confronto dos modelos de gestão adotado pelos dois presidentes dos clubes, Joan Laporta e Fernando Carvalho (respectivamente).

Fernando Chagas Carvalho Neto, 55 anos, advogado, sócio do Sport Club Internacional desde 1967 e conselheiro do clube desde 1982. Em dezembro de 2001, Fernando Carvalho tornou-se o primeiro presidente eleito pelos sócios do clube. Na sua posse, em janeiro de 2002, o clube passava por um momento delicado: falta de títulos regionais e nacionais, discussões políticas acirradas, pressão por resultados e dificuldades financeiras.

Como primeira medida, Fernando Carvalho propôs a pacificação política e aproximou os diferentes grupos políticos existentes no clube. O clube retomou a hegemonia do futebol regional no primeiro semestre, mas passou sufoco até a última rodada do Campeonato Brasileiro daquele ano, quando quase foi rebaixado para a segunda divisão, algo que somente o rival, Grêmio, tinha sofrido.

Depois do susto, Carvalho decidiu pôr em prática uma nova postura em relação à contratação de jogadores. As categorias de base foram valorizadas e novos talentos foram lançados, como os atacantes Nilmar (hoje de volta ao clube) e Daniel Carvalho.

Também houve um cuidado para a Lei Pelé e contratos mais longos foram assinados, principalmente com aqueles jogadores de maior destaque. Os resultados apareceram: em 2003, o clube conquistou uma das vagas à Copa Sul-Americana 2004 e repetiu o feito no ano seguinte. Em ambas as ocasiões, a equipe foi eliminada diante do Boca Juniors, da Argentina.

Em 2005, o Internacional investiu em nomes de qualidade internacional: Jorge Wagner, Tinga e Fernandão, todos oriundos do exterior, além de Rafael Sóbis, destaque da temporada com 25 gols marcados. O Internacional só não conquistou o título de campeão brasileiro em função do escândalo da arbitragem brasileira e da anulação pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva de 11 jogos.

O vice-campeonato foi o suficiente para que em 2006 o clube disputasse e conquistasse a Copa Libertadores da América, e quatro meses depois o título do Mundial de clubes 2006.

Na esfera administrativa, Carvalho e seus companheiros de direção também foram ousados: o clube saneou boa parte das finanças, foi implantado um programa de qualidade junto aos funcionários e o número de associados teve um aumento de 266%: de 12 mil para mais de 44 mil.

Na área patrimonial, o estádio foi recuperado e pintado, foram construídas novas suítes corporativas, além do novo contrato de catering do clube, que transferiu o custo das reformas de bares e banheiros ao novo prestador do serviço. Resultado: o Beira-Rio foi indicado pelo governo para ser sede da Copa do Mundo de 2014 no Rio Grande do Sul. Depois de cinco à frente do clube, Carvalho conseguiu reerguer a auto-estima da torcida com títulos e ações de valorização do espaço colorado.

Joan Laporta i Estruch, nascido em Barcelona no dia 29 de junho de 1962, também é advogado e presidente do clube azul-grená desde junho de 2003. É o sócio número 27.869 e surgiu na cena pública em 1997, aos 35 anos, quando fazia parte da candidatura de Ángel Fernández nas eleições do clube catalão. Um ano depois, em 1998, Laporta passou a liderar o grupo político de oposição “Elefant Blau”, formado por uma equipe de jovens empresários e executivos, todos eles na faixa dos 35 e 45 anos, fluentes em espanhol, catalão e inglês, e dispostos a dedicar os melhores anos das suas vidas em prol do clube.

A idéia era transmitir aos sócios e torcedores que se tratava de um grupo altamente preparado para assumir o clube, los JASP – jóvenes aunque sobradamente preparados. Laporta foi chamado de “Kennedy barcelonista” por um jornal inglês, numa alusão ao ex-presidente norte-americano. Aos 39 anos, em junho de 2003, Laporta passou a ser o quarto presidente mais jovem do FC Barcelona.

Mesmo com a contratação de Ronaldinho Gaúcho, os resultados em campo não foram animadores em sua primeira temporada como presidente (2003-2004) e a Copa Catalunya foi o único título conquistado, o que se repetiu em 2004. Em maio de 2005, Laporta obteve sua primeira grande conquista: a Liga Espanhola.

Em seguida, uma grave crise institucional se instalou no clube com a demissão de quatro diretores, incluindo Sandro Rosell, responsável direto pela contratação de Ronaldinho Gaúcho, razão pela qual a crise ganhou uma repercussão ainda maior.

Laporta foi acusado de ser autoritário e de ter uma excessiva ambição de poder. Independentemente disso, porém, o grupo de Laporta renegociou as dívidas, promoveu reformas no Camp Nou e lançou uma campanha para novos sócios. Em 2006, o Barça alcançou a sua segunda Liga Espanhola consecutiva, assim como a Champions League, a segunda em 100 anos de história do clube.

No mundo do futebol, muito se fala sobre a profissionalização dos clubes. Respeitadas as diferenças culturais, históricas, financeiras e sociais de cada clube – não existe hoje nenhum modelo ideal de gestão a ser replicado em outros clubes -, uma análise do trabalho desenvolvido pelos presidentes do Internacional e do Barcelona reflete alguns pontos que merecem uma análise mais ampla.

Inúmeras semelhanças se mantiveram ao longo das suas gestões: cada clube enfrentava um momento político efervescente, havia problemas financeiros e dentro do campo os resultados não eram os melhores, gerando uma pressão da torcida e da mídia. Cada um ao seu estilo, os presidentes de Internacional e Barcelona tomaram a dianteira no processo de reestruturação de seus clubes: assim como nas empresas, os clubes precisam de um líder, alguém que possa agregar outros talentos à sua volta e enfrentar as crises que se encontram a cada esquina, ou melhor, a cada rodada, em se tratando do mundo do futebol.

Os dois presidentes utilizaram soluções de muita criatividade. O futebol, sendo o mais popular dos esportes, encontra-se no segmento de entretenimento e lazer, ou seja, estamos falando de pessoas que aproveitam as cada vez mais raras horas de folga do trabalho e do cotidiano para freqüentar shoppings, cinemas, shows de música, horas à frente da internet e da televisão (muitas vezes ao mesmo tempo), viagens, etc., além de outros eventos esportivos.

Se hoje a concorrência é maior, por que não aproveitar os inúmeros espaços ociosos existentes nos estádios de futebol? Ou ainda: por que não oferecer um serviço diferenciado aos torcedores? Foi exatamente isso que fizeram Fernando Carvalho e Joan Laporta ao promoverem reformas em cada estádio, com o objetivo de atrair novos investidores e também proporcionar um maior conforto aos seus clientes, o que significa concorrer diretamente com as demais formas de entretenimento (às vezes até se associando a elas).

Os clubes de futebol lidam com um mercado cativo, que não sofre grandes alterações. Cada clube representa uma marca repleta de fiéis seguidores dispostos a consumir tudo o que lhes for oferecido. É tão difícil tirar proveito desse mercado cativo? Fernando Carvalho e Joan Laporta souberam fazer isso com competência de sobra. Ambos criaram um “círculo vitorioso”, que pode ser dividido em três segmentos: esportivo, econômico e social.

No primeiro está a forma de gerenciar o futebol em busca dos melhores resultados. Claro que o Internacional não tem um Ronaldinho, mas isso não impediu que o time colorado buscasse no mercado os jogadores com as características ideais para o time, como Fernandão, com um espírito de liderança muito forte.

No âmbito econômico, mais uma vez os dois presidentes trilharam caminhos semelhantes: reduziram despesas, usaram a criatividade para obter novas fontes de receita e buscaram na inovação a solução para muitas das questões relacionadas aos dois clubes, exatamente como muitas empresas fazem no meio empresarial. As dívidas dos dois clubes foram controladas e as receitas atingiram níveis históricos.

Por fim, o relacionamento com os torcedores, e principalmente com os sócios. O Barcelona sempre foi a grande referência do futebol em relação ao número de sócios e o Inter adotou o mesmo princípio para garantir uma receita mensal significativa. O sonho de todas as empresas, de que os clientes sejam fiéis às marcas, os clubes já têm. E gerenciar melhor essa relação é mais fácil e mais barato do que correr atrás de novos torcedores – esses surgem normalmente em decorrência dos títulos conquistados.

O modelo do Internacional vem sendo adotado por boa parte dos clubes brasileiros. Mais importante, porém, é não deixar que esse sócio se transforme apenas num nome do banco de dados, mas sim utilizar todas as ferramentas de gestão apropriadas para o relacionamento com os seus clientes: é preciso oferecer a eles benefícios e atenção constantes.

Não por coincidência os dois clubes se encontraram no Japão. Claro que há inúmeras outras iniciativas interessantes no mundo do futebol desenvolvidas pelos demais clubes e que também poderiam ser consideradas para esse modelo de gestão ideal. Enquanto não se atinge esse nível, que tal olharmos um pouco mais para os modelos adotados por Internacional e Barcelona?

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