Rui Carvalho – A agonia de seu Osmar

A rotina para o torcedor do Bahia, nestes dias que se sucede a fatídica derrota tricolor lá em Natal para o ABC Futebol Clube, tem sido apagar e-mail, tanto dos confrades tricolores quanto de alguns rubro-negros gozadores, foge-se deles, como o diabo foge da cruz, inda assim é melhor enfrenta-los do que tolerar alguns tricolores.

Seu Osmar, hoje, logo cedo assim que abri a Loja, lá vem ele, não podendo me imiscuir do assunto, encarei. Vinha ele cabisbaixo, visivelmente abatido estava, aproximou-se lentamente, parou à frente do Portão de correr que ainda estava fechado, nem entrou, de lá mesmo disparou: Acabou…

Balancei a cabeça afirmativamente querendo fugir da choramigueira que certamente viria depois, não teve jeito, como o considero muito, terminei oferecendo meu ombro amigo, embora também machucado, para o desabafo dessa excepcional figura.

Deixando alguns preâmbulos de lado, pois são comuns à maioria dos casos, já que se trata de pareceres individuais e cada qual lida à sua maneira sobre os muitos equívocos de gestão, no Bahia, como a contratação de Artuzinho, Preto, venda de Danilo Rios, e etc e tc e tais, passou seu Osmar a falar sobre como ele enfrentou os noventa e poucos minutos daquele dramático jogo contra os potiguares.

Disse ele que após o empate tricolor, através o gol de Moré, correu para o chuveiro, fingindo banhar-se e ouvindo os locutores em tons sensacionalistas retratarem a verdade do jogo, enquanto que em sua imaginação desenhavam-se as cenas como sua preferência clubistica definia, foi um banho de mais de meia hora sem se ensaboar, só a água fria escorrendo pela cabeça abaixo refrigerando a mente e aplacando o coração, tinha medo de sair de lá, temia pelo enfarto do miocárdio ou um aneurisma cerebral, mas saiu.

Desligou o rádio, mas infelizmente o vizinho, torcedor do co-irmão, notando seu desespero, ligou o som potente do carro. Seu Osmar não mais agüentando, fugiu! Foi para a beira do Rio Ipitanga e lá se sentou, ficou olhando o esgoto que corre a céu aberto no leito deste outro defunto, corria o lodo, mas era como se a oitava maravilha do mundo fosse, na visão entorpecida de Seu Osmar, imagine!

Quando voltou a si desse deslumbramento, resolveu ir embora e encarar a dura realidade, fosse qual fosse.Voltando, de longe mesmo ficou sabendo através dos altíssimos decibéis provocados pelo tal carro do vizinho adversário, o resultado do jogo, Baêa perdeu.

Segurou o choro, levantou a cabeça, deu um sorriso maroto para os enfileirados torcedores que parecia, lá estavam para cumprimentá-lo. Encarou-os um a um, do jeito que deu, sem muitas delongas. Foi pra casa, deitou-se e envergonhado não saiu mais naquele dia, até o pão foi Dona Maria que foi comprar. No caminho pra padaria, eram muitos a perguntar: Como vai seu Osmar? Cruel, a galera!

Eu por minha vez, como que para consolá-lo confessei também minha agonia, menos dramático talvez, pois tudo se resumia numa diarréia, atribuída ao sistema nervoso talvez, um banho frio, pijama, chá de capim santo, um comprimido, telefone fora do gancho e cama. Ah! Só pra dizer que não tomei nenhuma atitude imediata, quebrei os cartões do onda tricolor, foram três, os destruídos.

Acabou…

P.S. – Seu Osmar ta se sentindo culpado, acha ele que o Bahia só perdeu por conta dele ter desligado o rádio, coitado…

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