Os azuis

A maior homenagem de que se tem notícia a um jornalista esportivo está no nome do Maracanã: Mario Filho, também autor do livro clássico da história do futebol pentacampeão mundial, e que todo cronista já deve ter lido, nem que seja tomando emprestado.

É dele “O negro no futebol brasileiro”: muito antes dos estudos da diáspora em Birmingham, Inglaterra, Mario Filho já tentava articular a capacidade de inserção do afro-brasileiro e cultura nacional, por meio da habilidade de jogar bola.

Foi Mario Filho também quem comprou o Jornal dos Sports, que ao lado da Gazeta Esportiva, hoje em ambiente virtual (www.gazetaesportiva.com.br), formou a dupla de publicações que ajudou a desenvolver a cultura esportiva no país, a partir dos anos 30.

É neste cenário super-recheado de história e cultura, que o torcedor brasileiro põe os olhos ou os pés hoje, a depender de sua possibilidade de ver pela tevê ou ir ao estádio construído no Rio de Janeiro para a Copa de 1950.

Coincidiu com a derrota para o Uruguai na final por 2 a 1: um acidente que terminou conhecido como Maracanazo e marcou a alma brasileira, no momento em que o País se preparava para dar seu grande salto de industrialização na siderurgia e metalurgia.

Ao voltar, hoje, ao Maracanã, depois de sete anos jogando em um monte de estádio por aí afora, a dinheiro, a Seleção Brasileira é favoritissíssima para vencer o Equador, graças ao negro no futebol, e que até já transcendeu a idéia do fenótipo ou cor da pele.

Nem sempre foi assim, pois o futebol, que se tornou o símbolo de nação, construída com base cultural, e não contratual, chegou por aqui bem branquelo: até a Copa de 1958, se sustentava o preconceito contra a tal da mestiçagem supostamente débil e covarde.

Acreditava-se que o Brasil jamais seria um país de primeira porque a “raça” era misturada e triste. Era o que Nelson Rodrigues, irmão de Mario Filho, chamava de complexo de vira-latas, curado pela dupla de gênios, no limite do adjetivo: Bilé e Mané.

Bilé era um goleiro do Vasco, time para o qual o menino Edson torcia, na infância. Como não acertava dizer o nome direito, terminou virando mesmo Pelé. E seu parceiro Mané tinha nome e alma de passarinho: Garrincha, o anjo das pernas tortas.

Os intelectuais pedantes, não os orgânicos, passaram décadas maldizendo o futebol, mas recentemente trabalhos como a tese de doutoramento de Fátima Antunes, sobre a identidade do brasileiro na crônica esportiva, vem reabilitando o esporte na academia.

O Brasil se afirmou como pátria capaz de se desenvolver, graças ao incentivo do programa “50 anos em cinco”, de Juscelino, enquanto no plano simbólico ou cultural, o bando de mestiços e negros destronava os pálidos suecos, tchecos, russos, franceses…

A capacidade de reinventar o futebol que os ingleses exportaram para o mundo tem sua expressão máxima na manchete de um jornal chileno, logo após a fantástica (fantástica mesmo, de assombrosa) exibição de Garrincha, na vitória sobre o Chile, em 1962.

“Garrincha, de donde vienes?”, perguntaram os chilenos, que trabalharam a hipótese de Mané ter sido produzido pelos azuis, um povo de pele transparente, baixote, de olhos redondos e que manteve contato imediato nos arredores de Santiago no ano da copa.

Todo este caldo histórico de passado, que nós não vivemos, e só podemos enxergar a partir da nossa atualidade, está representado no sentimento de casa, a chamada topofilia, ou amor ao lugar, que o Maracanã transmite a cada torcedor que se diga brasileiro.

Mesmo quem detesta Robinho, Ronaldinho e todos os inhos, Galvão, Falcão e todos os ãos, não escapa de estar imerso em um ambiente nacional que faz da bola seu melhor formato. Não há como negar esta identidade: é como o polegar na nossa carteira.

O jogo vai passar 20h45min na Bahia porque de Minas pra baixo tem horário de Verão. Fica o alerta. Recuem sempre uma hora porque eles não têm a menos consideração de fazer a ressalva na programação. Se fosse o contrário, diriam horário de Brasília…Paulo Leandro

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