Eduardo Sampaio – Nelson Rodrigues, o Sobrenatural de Almeida

Criado pelo eterno pó-de-arroz Nelson Rodrigues, o Sobrenatural de Almeida é a melhor definição do que às vezes ocorre dentro das quatro linhas. No entanto, acredito que cansado da violência carioca, da guerrilha urbana, ele resolveu mudar-se para a Bahia assim que Nelson faleceu.

Deve ter andado escondido por aqui por um bom tempo, mas fanático por futebol que é nunca deixava de comparacer a algum jogo, nem que fosse pelada de praia.

Estaria ele na Fonte Nova quando Fito chutou aquela bola que explodiu no peito de Gelson e caiu dentro do gol? Estaria ele nas arquibancadas quando Toninho Taino selou o 5×0 contra o Santa Cruz? E quando Raudinei acertou aquele chute em 94, por certo Sobrenatural estava na Fonte.

Porque o sobrenatural só acontece com times do povo, não adianta achar que pode acontecer com o São Paulo ou com o Botafogo, esse tipo de coisa só acontece com Flamengo, com Corinthians e, lógico, com o Bahia. Times da elite ou de elite são tão aristocráticos quanto previsíveis, você já sabe no começo do jogo se o time vai ganhar, perder ou empatar, não existe aquele elán, aquele lance mágico.

E mais uma vez Sobrenatural, mesmo cansado de tanta humilhação, juntou-se às quase 9 mil testemunhas que foram ao jogo neste domingo; em condições normais, jogo pra 40 mil, mas nem mesmo o mais sonhador poderia imaginar que seria assim; ele poderia supor que seria, mas não assim.

Radinho no ouvido, seu Almeida estava lá quieto no seu canto, amaldiçoando o Rio Negro de tal forma que este não só perdeu um pênalti como foi incapaz de derrotar um time com apenas 3 titulares dentro dos seus domínios e no qual não havia perdido uma partida sequer.

Seu Almeida praguejou tanto que o juiz expulsou dois jogadores manauaras – um sem qualquer sentido; deixou de marcar um pênalti contra absurdo e clamoroso aos 45 do segundo tempo; e ainda deu 6 minutos de acréscimo – uma situação rara, nunca vista, apenas quando a luz apagava ou havia uma invasão de campo.

E ainda cruzou os dedos pra quase quebrar quando aquele jogador do Fast se viu sozinho diante do gol e jogou a bola no Dique… Impossível não dedicar esta vitória épica – por mais que a gente seja contra a direção do clube, o feito merece de fato uma exaltação, e nem por isso eu vou virar torcedor de carteirinha de novo, pelo menos ainda não! – ao Sr. Sobrenatural de Almeida, que roubou a bola no meio de campo, esticou para Marconi, deste para Carlos Alberto e daí um chute seco, desesperado que passou no meio de 12 pernas e se ofereceu para Charles arrematar aos 50 minutos de jogo.

Não sei se ele consegue fazer das suas duas vezes seguidas ou no mesmo ano. Pode ser que ele já tenha feito a sua parte e com isso tenha dado de graça uma chance que parecia perdida e longínqua, um verdadeiro presente dos deuses do futebol. Quem for competente que a aproveite.

Cronica originalmente publicada no Forum do Portal Esportivo

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