Bahia foge da torcida no desembarque

A vergonha não está na derrota, limpa, no campo de jogo. É traduzida na atitude covarde de esconder a cara por trás de cortinas cerradas e janelas fechadas – na clara tentativa de fugir à responsabilidade pelo delicado momento em que o Bahia se encontra nesta Série C do Campeonato Brasileiro. A saída sorrateira, pelos fundos, é digna mesmo da derrocada do Bahia nos últimos anos.

Descenso à Série B em 2003. Fracasso no quase-retorno em 2004. Queda ainda mais vertiginosa em 2005. Permanência no porão do Brasileiro em 2006. E uma temporada 2007 problemática, com perspectiva de acabar neste domingo, na Fonte Nova. O vôo 1633 da Gol aterrissou no aeroporto de Salvador por volta das 17h40 de ontem, mas os 200 torcedores que lotaram o saguão não tiveram a quem direcionar seus protestos, senão à imprensa.

A tradicional rota de fuga, batida nos anos de fracassos nas séries B e C, reeditou as escapadas furtivas pelo terminal de cargas. O drible eficaz na torcida não contornou jornais e televisão. Acompanhado por batedores da Polícia Militar, o ônibus passou, mas foi perseguido sistematicamente em roteiro que inicialmente levaria ao Fazendão, mas acabou num tour por Lauro de Freitas, Estrada do Coco, Villas do Atlântico, Ipitanga, Stella Maris e Praia do Flamengo.

A estratégia inicial era dar voltas aleatórias; em vão. Mediante a persistência da imprensa, restou o pinga-pinga. A cada parada, desciam atletas mudos, indiferentes aos insistentes pedidos de resposta. O técnico Arturzinho desembarcou com Amauri, Fausto e outros tantos num posto de gasolina na Estrada do Coco.

De pronto, adentrou o carro preto e sumiu sem dar muita importância ao destino dos outros, no melhor estilo “cada um por si e Deus por todos”. A brusca movimentação chamou a atenção de clientes e transeuntes. As duas viaturas da unidade de Rondas Especiais (Rondesp) fizeram seu trabalho. Abriram caminho para o ônibus seguir viagem. O destino? Casa. O lar doce lar tricolor desde o ano passado – a terceira divisão do Campeonato Brasileiro.

Protesto – A movimentação desmedida no aeroporto no final de tarde denunciou o protesto. A organizada Bamor conseguiu reunir aproximadamente 200 torcedores, que saíram do Iguatemi em dois ônibus. Nariz de palhaço, pipoca, calcinha, gritos de guerra e faixas – as mesmas utilizadas a cada movimentação contra o grupo que se perpetua no poder desde a década de 70.

“Maracajá: coveiro do Bahia”; “fora malditos: Marcelo, Petrônio e Maracajá”; “Maracajá, Marcelo e Petrônio: o trio do mal”. Os dizeres em letras brancas garrafais no fundo negro ressurgiram. “A gente coloca 60 mil no estádio… não podemos ter uma diretoria dessas. Eles tinham que sair desde o ano passado”, chorou Bruno Rosa, 13 anos.

O garoto sequer se lembra do último título do clube de coração. O longínquo 2002 passa tão longe em sua memória que Bruno desafina: “eu não sei, porque nem era nascido na época”. A culpa pelo sofrimento inconsciente é do pai, incentivador das tardes de domingo, na Fonte Nova. Perseguido pelos colegas, desabafa. “O Bahia tem duas estrelas no peito e não pode continuar assim”.

O pedido ganha coro no setor de desembarque, mas em tom de ordem – dura e direta. “A gente já se cansou há muito tempo. Queremos uma nova administração para esse clube já”, pregou Jorge Santana, presidente da Bamor. A torcida vai ao estádio domingo, mas para dar seqüência aos protestos. Ninguém esqueceu a venda de Danilo Rios, diferencial do time, por mísero milhão de reais. Os cofres engordam e o Bahia segue em queda livre. Para tapar o buraco, Preto – que ainda não disse para que veio. “E Carlos Alberto na farra, brigando com supervisor de futebol”, completou um dos muitos anônimos. A mobilização ainda ganhou a frente do Fazendão, mas sem jogadores ou diretoria por lá, o encontro ficou adiado para domingo.

Correio da Bahia

Foto – Portal Esportivo

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