Vitória não fez macumba: ora bolas que venha uma bola!

Por uma bola

De um lado o grande líder, o Timão. Invencível há meses, um quase campeão. Do outro, o Vitória, o penúltimo, na zona da degola. Mas este ganhou daquele. Para o bem do campeonato. E felicidade geral de quase toda a nação. Não fosse isso, o futebol não teria graça.

– Foi macumba – diz um.

– Oxente! Se macumba ganhasse jogo… – retruca outro.

– O Vitória jogou por uma bola – disse um repórter ao técnico Mancini.

Ora, direis, “jogar por uma bola”. Mas, brother, todos não jogam por uma bola? Não são vinte e dois doidos atrás dela? O ludopédio é isso: “Meu reino por uma bola”. Você fala “jogar por uma bola” como se isso fosse garantia de êxito: uma bola vai cair do céu, vai fazer o diabo em campo e vai morrer lá no fundo do filó.

E depois? Essa tal “uma bola” vai sumir? “Oh, bola, onde estás que não respondes? Com qual gandula, em qual rede tu te escondes?”Sim, eu sei, a seleção de 1994 jogou por uma bola. E só foi por isso que ganhou a copa do mundo. Eram nove atrás e bola pra Bebeto e Romário. Lembra do sufoco contra os Estados Unidos? A bola do gol de Bebeto era a mesma da final. Aí Baggio, cheio de pose, mandou a bola na casa do Carvalho. Porque era “a bola do Brasil”, ora bolas!

Mas voltemos ao Coringão, o campeão mundial.

Corinthians de Tite e agora de Carille. Marcação forte, roubada de bola, contra-ataque e gol. Eis a filosofia de jogo. E o que foi o Timão em 19 jogos no Brasileirão? Foram 14 vitórias, 5 empates e nenhuma derrota. Ou 47 pontos e 80% de aproveitamento. Recorde atrás de recorde. Jogando atrás, no ferrolho, tomando a bola e: “Vai que é tua, Jô”.

Sábado o feitiço virou contra o feiticeiro. O Vitória não fez macumba, apenas usou as armas do Timão. Defendeu-se, tomou a bola, partiu em contra-ataque e foi feliz. Repare o lance do gol… É cagada-e-cuspida uma jogada tipicamente corintiana. O Vitória roubou a bola e saiu virado no raio da desgraça, no contra-ataque, e aí, já viu, morreu a gloriosa Maria Preá.

Você pode até dizer que meu Vitória “jogou por uma bola”. Mas você sabe que foram jogadas muitas bolas em campo, lembra? A cada escanteio, a cada lateral, a cada tiro de meta, lá vinha uma bola nova. Foram tantas que eu perdi a conta.

Mas, lembre-se: o gol saiu aos 12 minutos – ainda restavam 78 minutos (e mais acréscimos) para o Gavião fazer gol no Leão. Depois do gol, essa “uma bola” do Vitória não voltou mais a campo. Algum gandula mandou a infeliz pro quinto dos infernos. Se aquela “uma bola” do Vitória voltasse, Cássio não pegaria o chute de Neilton e seria dois a zero. Aliás, se aquela “uma bola” do Vitória voltasse a campo, a arbitragem não teria um gol legítimo, aí seria três a zero, um chocolate.

O baba durou 99 minutos: 90 do regulamento mais 9 de acréscimos dados generosamente pelo árbitro. Nesse tempo todo, o Vitória só teve uma bola – você diz. O Timão teve outras 99 bolas jogadas pelos gandulas. E não fez nada, ou melhor, não fez o que importa, que é o gol.

Mas é isso, então, o Vitória agora já sabe o que fazer. Vai sempre “jogar por uma bola”. Pois com essa “uma bola” ele sairá da zona. E será campeão do Brasil e também do mundo. Basta “apenasmente” isto: “jogar por uma bola”. Por que, como diz o outro, o mundo é uma bola, se não fosse uma bola, seria um saco. Saudações rubro-negras.

Marcelo Torres é baiano, mora em Brasília, torcedor do Vitória e amigo do Blog.